Cumpre-se o velho refrão: pior cego é aquele que
não quer ver. O Governo, como quem se perde no mato, troca a esmo de
rumo, e, não raro, surpreende-se a refazer trilhas refeitas. Em
semelhante quadro não estranha que a psicologia comece a afastar a
política na formulação de análises, eis que, turbados pela proximidade
do fim, passam os governantes do erro ao desatino e deste à demência
explícita.
É elementar que questões afetas ao destino dos povos não
sejam confiadas a um técnico por mais qualificado que seja. Aos expert,
que não foram ungidos pelas urnas, estará sempre reservado papel que não
pode sobrepujar o dos governantes, por relevante que venha a ser.
Eis porque o desempenho do ministro Levy entra para o rol dos fracassos
anunciados. Profano que é em matéria política, não consegue enxergar que
a economia, já exangue, vê seu mal agravado pelo simples anúncio de
suas medidas. Crê, por ser egresso do alto mundo financeiro, que a única
causa do descrédito do mercado na gestão governamental é a ameaça de
calote nos juros da Dívida Pública e por isso apega-se à ideia de prover
a reserva conhecida como superávit primário. “Foco e determinação”
rezam as cartilhas. Firme nestes postulados sai nosso corpulento
cavaleiro a decepar direitos, expondo ao relento viúvas, pescadores, e
desempregados, numa triste paródia de seus antepassados medievais que
precisamente na proteção dos mais fracos encontravam inspiração para
suas cavalarias.
Deixando de lado lanças cavalos e armaduras,
resta a malta de ladravazes ensandecidos que em meio ao cataclismo
continuam a distribuírem-se ministérios, cargos e verbas numa evidente fuga da realidade que os espreita com algemas e tornozeleiras.
Ontem ainda, em mais um lance da patética farsa em que se transformou a
presidência, recebeu a Câmara medida em que pede o Palácio autorização
para aumentar em 50 bilhões os fundos do BNDES, casa que se transformou
no banco do diabo, a emprestar a 6, dinheiro tirado a 13% do couro do
povo. Isto de cambulhada com as famigeradas medidas do ajuste fiscal.
Não se iludam. Não é porque se façam de surdos que as panelas deixarão
de bater.