Em
inúmeras passagens de sua obra escrita, Vladimir Ilitch Lenin atesta a
necessidade de serem celebradas tréguas com o inimigo, quando não alianças
temporárias com segmentos dissidentes do que definia como “inimigos de classe”.
Tais arranjos deveriam durar apenas o tempo em que rendessem acumulação de
forças para a revolução. Tão pronto como se evidenciassem nocivos ao avanço em
direção ao poder, deveriam ser singelamente abandonados sem qualquer
advertência ao aliado traído.
Obviamente
essa forma de pensar do “guia dos povos” guarda inteira consonância com o conjunto
da doutrina marxista, naquilo que considerava normas de fidelidade como
desprezível “moral burguesa”.
Na
luta pela redemocratização de nosso país, sem qualquer menosprezo pelos que
optaram pela luta armada, resulta inequívoco que a vitória sobre o arbítrio
deveu-se, no fundamental, ao papel desenvolvido pelos legalistas, por quantos,
pacientemente, teimaram em ampliar, numa luta tenaz e constante, o exíguo
espaço que a ditadura se via compelida a conceder.
Ora,
é curial que nesse processo, fosse a frente libertária ganhando adeptos que
desertavam das fileiras do “regime”. Formou-se assim um “frentão” heterogêneo
cuja unidade repousava exclusivamente no afã de restaurar o Estado de Direito.
Nada mais explicável que a passagem para a democracia viesse a ocorrer através
de um compromisso. Sobreveio a anistia ampla e irrestrita, retirando da
apreciação judicial todos os eventuais crimes cometidos durante a ditadura.
Os
delitos podem ser separados em puníveis e não puníveis. Os primeiros devem ser
investigados pela polícia e pelo Ministério Público. Aqueles cuja punibilidade
foi extinta pela prescrição ou por determinação legal, passam a pertencer à
história. Somente os historiadores, autênticos desde logo, por imperativo
vocacional só se satisfazem com a verdade. A eles, profissionais ou amadores,
deve ser confiada a tarefa de trazer à luz os fatos, cuja lembrança é garantia
contra o retrocesso.
Daí
que não inspirem confiança “comissões” nomeadas pelo Palácio para investigar os
fatos ocorridos nos vinte sombrios anos. Investigar ou julgar? Cuidado porque o
fantasma de Lenin, presente às reuniões, pode estar caducando. Não ignoremos
que os vitoriosos na redemocratização não foram os
vanguardistas da classe operária. Foi a burguesia brasileira, políticos, jornalistas,
empresários, eclesiásticos. Muitos, entre estes, com destacada atuação no
governo de exceção. O pacto celebrado regeu-se pela moral burguesa, que longe
de apodrecer como previra Marx, tornou-se ferramenta imprescindível das mais
comezinhas relações entre as gentes.