João Bosco Abero é advogado e escritor. Participa aos sábados do Programa Visão Geral da Rádio Cultura de Bagé, com comentários sobre política e assuntos gerais.
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quarta-feira, 31 de agosto de 2011
BAGÉ NAS RUAS
terça-feira, 23 de agosto de 2011
VAMOS PARA AS RUAS
A quebra da espinha dorsal da associação de bandidos a que, eufemisticamente, emprestou-se o nome de pacto pela governabilidade representou grande avanço. Tal vem permitindo a derrubada de ministros que nem numa peça de ficção poderiam integrar o governo. Paralelamente ao tombo dos corruptos verifica-se o pânico alastrando-se entre as bancadas, de deputados e senadores, que começam a perceber que o alardeado poder de barganha com que pretendiam isolar o palácio era de papel. O governo, embora suspeito, começa a ganhar apoios no congresso e na sociedade, capaz de neutralizar as ameaças dos parlamentares assaltantes. Mas nada disto é suficiente. Se a luta for entregue ao Planalto a corrupção sobreviverá. Novos corruptos serão nomeados, novos esquemas serão montados, outros farsantes serão eleitos. Nada nos restará senão repetir com Dante: “Lasciate ogni speranza voi ch’entrate”[1].
Isto não se dará se nós (nós na real, eu e você que está me lendo) ganharmos a rua e tornarmos visível nossa repulsa à corrupção. Somente quando nossa indignação se tornar visível, através de presença física e multitudinária, as demais forças, imprensa, partidos, sindicatos, congresso, judiciário serão suficientemente potencializadas para que se atinja um novo padrão de convívio. Acabará a impunidade e a corrupção descerá para níveis suportáveis.
Estamos convocando o povo de Bagé, através deste blog, do programa Visão Geral da Rádio Cultura e de outros meios que se oferecerem para encontros na Praça dos Desportos. Ali nos reuniremos para dar início a um amplo movimento de opinião. Isto ocorrerá em finais de semana, possivelmente aos domingos.
A espontaneidade será nossa marca, a indignação nossa argamassa, a criatividade nossa bandeira, o clamor por medidas punitivas aos ladrões nosso objetivo. É fundamental que a dinheirama roubada seja devolvida ao erário. Que os julgamentos dos corruptos cheguem ao fim. Tudo a partir dos instrumentos legais e dos dispositivos repressivos já existentes, sem prejuízo de seu aprimoramento.
Contate conosco. Se tiver alguma idéia melhor para deflagrar o movimento comunique-nos.
[1] DEIXAI TODA A ESPERANÇA , VÓS QUE ENTRASTES. Frase lavrada no frontispício do inferno (Inferno, Canto III, vv. 1-9).
sábado, 20 de agosto de 2011
Resposta ao Anônimo
Agradeço suas intervenções que muito me estimulam. Penitencio-me por não ter corrigido a troca de Honduras por Nicarágua. Para quem, como eu, acompanhou o drama daquele povo, a que não faltaram lances de comédia bufa, por conta do papel do charlatão Zelaya e de nosso lamentável chanceler Celso Amorim, claro está que a troca consistiu em falha mecânica. Mesmo assim agradeço sua atenta observação.
Não procede a crítica que me faz por não admitir a resistência dos governos a que se instalem CPIs. O que refuto é a argumentação usada para justificar essa resistência. De que a oposição quer criar um fato político. E por que não o criaria? Estranhável seria que pretendesse criar um fato sociológico, financeiro, cultural ou biológico. De que a oposição visa ao desgaste do governo? É de esperar-se outra conduta? Inibir essa intenção é o escopo fundamental de todos os tiranos.
Não presumo a boa-fé das CPIs e tampouco preconizo que elas se multipliquem. À oposição cabe o risco de intentá-las. Seu malogro, se não tiver sustentação e respaldo da opinião pública, acarretará desgaste aos seus propositores. Por outro lado, a resistência descarada do governo à sua instalação e o uso posterior de expedientes condenáveis para impedir que prosperem, desgastam o governo que, por essa resistência e esses expedientes, define-se como corrupto. Na prática, as comissões parlamentares de inquérito são instrumentos insubstituíveis na promoção da alternância de poder, na transparência da ação estatal, no aumento da participação popular no comércio político. Fatores essenciais ao fenômeno democrático.
Por fim respondo a sua bem-humorada alusão ao meu passado marxista para alertar-me para o risco de que me venha a cegar a paixão pela democracia. Sabe o senhor tanto quanto eu que democracia não cega. É como prevenir alguém para o excesso de saúde ou para não abusar da abstinência às drogas. Volte sempre.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
ALGO SOBRE POESIA
A grandiosidade de Os Lusíadas eclipsou a obra de Camões em medida velha, redondilhas e cantigas que lavrou com a mesma genialidade do épico imortal. Claro que isto vale para o público leitor que, além de reduzido, tende a desaparecer nestes dias de escuridão cultural.
Já seria de festejar se ao menos os poetas jovens tivessem algum convívio com a obra do vate em “medida velha”, que é como se costuma designar os versos que compôs com a estrutura medieval de cinco sílabas (redondilha menor) e sete (redondilha maior).
A Semana de Arte Moderna que tanto enriquecimento trouxe para a arte em nosso país deixou infelizmente um efeito colateral que ainda perdura: a idéia de que para fazer poesia atual, livre, não se precisa conhecer a técnica dos clássicos, sequer conhecer suas obras. Vejamos o que se perde:
- Mote alheio
Menina dos olhos verdes
por que me não vedes?
- Voltas
Eles verdes são
e têm por usança
na cor esperança
e nas obras, não.
Vossa condição,
não é de olhos verdes
porque me não vedes.
- Em outra passagem:
Verdes não o são
no que alcanço deles;
verdes são aqueles
que esperança dão.
Se na condição
está serem verdes,
por que me não vedes?
- Mote seu
Descalça vai pela neve:
assi faz quem amor serve
- Voltas
Os privilégios que os reis
não podem dar, pode Amor,
que faz qualquer amador
livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis
ferro, frio, fogo e neve,
tudo sofre quem o serve.
Moça formosa despreza
todo o frio e toda a dor.
(Olhai quanto pode Amor
mais que a própria natureza);
medo, nem delicadeza
lhe impede que passe a neve:
assim faz quem amor serve.
Por mais trabalhos que leve
a tudo se ofreceria;
passa pela neve fria,
mais alva que a própria neve
com todo o frio se atreve,
vede em que fogo ferve
o triste que o Amor serve.
- Para encerrar o quarteto de um soneto, agora em decassílabos:
Eu cantarei de amor tão docemente
por uns termos em si tão concertados,
que dois mil acidentes namorados
faça sentir o peito que não sente.
Amanhã estaremos no Visão Geral com o Muza. Lançaremos a idéia de um encontro na praça para tornar visível nossa indignação com a corrupção reinante. Ainda: “ofreceria” é grafia do próprio Camões.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
COMEÇO DO FIM
Começa a ruir a construção sem alicerces que uma oligarquia corrupta erigiu com a finalidade única de roubar. Nenhum dos mecanismos de autodefesa usados pela máquina de corrupção se mostra eficiente. Já não há blindar autoridades caídas nas malhas da Imprensa e do Ministério Público. Escasseia o recurso para manter silentes os deputados, com a liberação das famigeradas emendas ao orçamento e, remate de males, encolhe-se a oferta irresponsável de crédito que mantinha a ilusão de Brasil grande e rico.
Os “movimentos sociais” mantidos com o recurso do erário, com a finalidade de angariar prosélitos, começam a se esgarçar, porque é impossível manter pessoas em torno de uma farsa. Ainda hoje 40 mil mulheres trazidas de todos os confins do Brasil em comboio de 800 ônibus reuniram-se frente ao palácio do Planalto para “trazer reivindicações” em favor de integrantes da Agricultura Familiar. A presidente com chapéu confeccionado pela dirigente do grupo encarnou, muito mal, um papel que misturava Eva Perón com Chapeuzinho Vermelho. Não chegou ao fim sua arenga sem que a audiência ficasse quase deserta. É que seu discurso elencava benesses não sentidas e promessas que não seduzem. Os pelegos que organizaram a marcha participam da farsa, as mulheres não.
Chega-me a esta altura a notícia de que caiu o Ministro da Agricultura, malgrado o total apoio que lhe emprestava a Presidente. Torna-se cada vez mais visível a falsidade do papel de condutora da faxina que lhe querem atribuir. Claro está que não faz sentido, de momento, jogar pedras em Dilma Roussef. Seria no mínimo um trabalho diversionista, isto porque muita gente que lhe empresta o papel de saneadora age de boa fé e engrossa as filas da indignação. Importa reforçar o clamor pela instalação da CPI da Corrupção. A internet vai trazer grande reforço, mas nada pode dispensar nossa presença nas ruas. Vamos para a rua? Eu e o Luís Carlos Deibler estamos pensando em algo que pode começar por um ponto de encontro em uma de nossas praças. Sejamos dois, três, quem sabe quatro, não importa. Somos de Bagé e esta é a terra onde grandes coisas começam do pouco.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
COISAS DA CIDADE
Martim Fierro, Carlos Gardel, Borges, tangos, o folclore argentino, para citar apenas ícones, influenciaram fortemente o imaginário da cidade. A cultura brasileira, tropical e festiva, sempre encontrou nestas plagas um modificador, espécie de contraponto. Somos algo dramáticos. Nossa crítica é forte. Se em forma de humor, tem um quê de sarcasmo. Inúmeros os tangos de esculacho: garufa, muñeca brava, niño bien, cambalache, pan comido, buzón, dezenas de outros. As letras voltam-se para uma crítica mordaz de usos e costumes. São alvos o alpinista social, o novo rico, o trouxa metido a malandro, a grã-fina, o falso galã, o piolho de rico, o cabotino, enfim. De um tempo a esta parte, essa herança vem sendo atenuada. Talvez pela influência poderosa dos meios de comunicação, centrados em São Paulo e Rio, há uma visível massificação que inunda todo o espectro cultural, perceptível em tudo, sobremodo na música.
Meio século atrás, tanto quanto Tupi e Nacional, eram ouvidas as rádios Splendid, Belgrano, El mundo. Os narradores de futebol espalhafatosos do Rio contrastavam com as narrativas discretas, elegantes, vazadas em linguajar acadêmico dos colegas riopratenses. Ficaram célebres Fioravante na Argentina e Carlos Solé no Uruguai.
Não se imagine que digo estas coisas para confrontar a cultura brasileira com a platina. Menos ainda que sustente estarmos separados da matriz indígena e afro-européia. Viva Carmem Miranda, Jorge Amado, Lins do Rêgo, Graciliano, Pixinguinha, meu Deus! O que quero dizer é que somos do pampa e que por estas plagas, sopra, além do vento gelado, um frio de alma. Ele nos faz algo distantes, discretos, um pouco desconfiados, avessos ao elogio fácil, à exaltação por nada. Olhem estes versos do Ernesto Wayne:
Dentro de mim eu mesmo encontro abrigo
Do vento frio destas tardes baças
Pelos meus olhos tais como vidraças
Minha alma espia como num postigo.
Maria Valéria, personagem de O Tempo e o Vento, poço de ternura e amor pelo clã, era, ao mesmo tempo, quieta, prestante, silenciosa. Há uma passagem do épico de Veríssimo que narra a morte de Fandango, alma da Estância do Angico com sua sanfona e ditos. O jovem doutor Rodrigo Cambará aproxima-se do pai Licurgo, na hora do enterro, e se insinua:
- Não seria o caso de eu dizer algumas palavras?
Licurgo, do fundo de seu laconismo, sussurra:
- Não carece.
Como se Licurgo dissesse: de que valem palavras frente à morte? Deixe que fale o vento assoprando a macega. O silêncio com sua verdade aterradora. O gado que continua a pastar como se Fandango não tivesse morrido.
Muitos de nós muito têm de Licurgo. Romualdo, criação genial de Simões Lopes Neto, longe de ser protótipo do homem do campo, é sua exceção. Barulhento, mentiroso, bravateiro Romualdo fascina com sua prosa, precisamente pela excepcionalidade. Nada como ele para, à volta de um fogo, quebrar a monotonia dos galpões.
Essas coisas me vêm à lembrança quando advirto à minha volta uma onda desfigurante de ufanismo sem causa, oba oba sem fim, elogios recíprocos que se propagam, festival de títulos e de troféus, outorgas sem história, sem tradição, sem causa aparente.Talvez pela mesma vertente instalou-se desoladora falta de crítica e auto-crítica. Textos de pouca luz, nublados por adjetivação copiosa, atestados de metáforas duvidosas, são erigidos em modelos e exaltados até o exagero.
É necessário um contraponto. A cidade precisa de um jornal algo maldito. Não marrom, mas maldito. Que diga verdades, aponte mazelas. Ao menos para que se volte a enxergar a verdade óbvia de que nem todo o poema é maravilhoso, nem todo o quadro deslumbrante, nem todo o discurso eletrizante, nem toda a idéia fecunda. De assim não ser cairá sobre nós espessa nuvem de ignorância.
sábado, 13 de agosto de 2011
Novos Protagonistas
O movimento dos policiais e agentes de segurança pela obtenção de um piso salarial prenuncia cadeia de reivindicações, dos mais diversos segmentos, por melhorias salariais e de condições de trabalho. São pleitos legítimos que jaziam latentes sob a capa opressiva das direções apelegadas de sindicatos e associações. A capa se esgarça, se enfraquece, entre outras razões pelo desfazimento da ilusão de fartura que reinava, porque o mundo era rico e o dinheiro fácil.
Policiais, bombeiros e agentes de segurança estão mobilizados. Como convencê-los de que não há dinheiro para o que pedem e há para financiar estádios? Para a compra de jatos a um preço bilionário? Para sustentar 37 ministérios, a maioria inútil? Para manter ONGs bandidas, bichos de quatro bocas a devorar sem trégua o paiol do Tesouro? Sem falar da corrupção que assusta, do desperdício que aniquila.
O povo virá para as ruas e praças para juntar-se à Imprensa e aos indignados. Haverá força para impor a verdadeira faxina. A que envolve os chefes, a que apura e pune.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Mitos sempre mitos.
Em seu monumental Guerra e Paz, Tolstoi demonstra cabalmente que nunca uma batalha de Napoleão, vitoriosa ou perdida, correspondeu ao que fora por ele planejado. Os generais e comandantes da linha de frente, à base do que tiveram que decidir no fragor, foram os efetivos condutores da luta.
Na guerra, como na política, a ação dos indivíduos, por importante que seja, não pode ser elevada a condição de elemento predominante. Isto porque ela se insere em um processo rico, complexo, onde estão presentes inúmeros fatores de ordem objetiva, como os econômicos, e subjetiva como a opinião pública. Se por um lado os protagonistas influem nesse processo, não é menos verdade que, em maior grau, sofrem sua influência.
Daí que nada mais infantil do que comparar-se o jogo político ao do xadrez. A comparação só teria sentido se as peças do tabuleiro caminhassem sozinhas. No tabuleiro da vida onde se fere o jogo político peças e casas mudam de lugar a cada momento.
A comparação com o xadrez conduz ao mito do grande homem. Aquele que vai gerir a coisa pública para nós sem que precisemos nos preocupar. Ele é sábio e saberá escolher os melhores, ele é o mestre dos grandes lances. Eis a fonte de nossas misérias e calamidades. Getulismo, peronismo, chavismo, castrismo, stalinismo, nascem daí. Onde a vida é melhor, mais proteína e liberdade, tais mitos não prosperam. Churchil emergiu da guerra como líder inconteste da epopéia do povo inglês. Coberto de glória disputou as eleições após a vitória. Perdeu para o desconhecido Clement Atlee, líder trabalhista. O povo inglês não gosta de mitos.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
ILUSÕES PERDIDAS
A implosão da associação criminosa que, por artes do demônio, ganhou entre nós o nome de Pacto Pela Governabilidade, era previsível. Arrastou-se até aqui por força do atraso político de nossa sociedade.
O povo a apóia porque confunde o acanhado bem-estar que lhe trouxe o avanço da economia com a ação do governo; a classe empresarial porque agradece reverente o dinheiro fácil, sem indagar de onde procede; os movimentos sociais porque lhes é alcançado o recurso para que agitem as mais bizarras bandeiras num carnaval ruidoso e estéril; a intelectualidade porque lhes são alcançados meios e recursos para fazer festerê e impor uma cosmovisão totalmente divorciada da percepção geral; a classe política porque lhe é propiciada a farra dos ministérios de porteira fechada, de fartas emendas paroquiais e de um oceano de cargos para distribuir.
Dinheiro não aceita desaforo diz o sábio provérbio. Fácil inferir que nem a astronômica carga tributária recolhida, nem a dinheirama tomada mediante a venda de títulos, pagando juros desconhecidos no mundo, seriam suficientes para bancar essa orgia. A Imprensa, o clamor da parte não contaminada da opinião pública, foi suficiente para furar a bolha que a longo prazo acabaria por estourar espontaneamente.
O processo saneador descansa em causas objetivas a determinar violenta e irreversível rejeição do modelo anacrônico. Por isso não se vislumbra a possibilidade de ser conduzida a superação dessa crise de forma gradual e ordenada. Não tem meios a presidência da república de ir apagando os focos de incêndio um a um, buscando preservar a sobrevivência do modelo maldito. A regeneração passa por uma comoção nacional que quebre a resistência palaciana ao aprofundamento das investigações. Ela virá e com ela o fim da ilusão continuista.
Em tempo: neste instante um jornal televisivo dá notícia de que a polícia federal efetuou 38 prisões de funcionários ligados ao Ministério do Turismo. Entre eles o secretário do ministro. Qualquer ligação com corpo da matéria acima pode ser mera coincidência?
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
PANORAMA SOMBRIO
“Perco o ônibus e a esperança. Volto pálido para casa.” São versos de Drummond, límpidos e impactantes, com a marca do mestre. Todas as perdas nos deprimem, mas a da esperança nos destrói. E esse sentimento que se confunde com a vida, com o ar, com o pão cotidiano nunca fez tanta falta como nestes dias de sombra e de cinza.
Internamente a luta penosa contra um oficialismo irreverente que se apropria do poder e rouba tudo quanto não desperdiça. Compra lideranças e as põe a grasnar uma ladainha de jargões que a todas iguala na mediocridade. Enquanto isso o povo é entregue inerme à adversidade, sem hospital que o socorra, polícia que o proteja, escola que o ilumine.
O governo que por nada no mundo admite conter a gastança torrencial de sua máquina, voltada para a própria perpetuação, emite títulos com juros de 12,5% ao ano. Parte dessa captação é desperdiçada, parte emprestada a empresas escolhidas, a juros de 4%, parte vai para a formação de reservas que assegurem o pagamento dos juros da dívida. Dinheiro captado a juros altíssimos para pagar juros acumulados. A dívida cresce num ritmo alucinado, beirando já os dois trilhões de reais.
Pior: a taxa oferecida nos títulos da dívida da União provoca inundação de dólares no mercado financeiro de que resulta a valorização indesejada do real. Como conseqüência perdemos competitividade nas exportações.
Mentem os ministros. Um nos diz que vai conter a queda do dólar diminuindo o glamour de nosso mercado financeiro de dez para oito. Que o fizesse para seis, para quatro, e seria inócuo. Na praça global o juro é zero. Ignora o ministro esta obviedade? Como não lhe faço esse desfavor, concluo que mente.
Cai a produção industrial e a balança comercial acusa decréscimo de 30% em um mês. Isto se deve a que os preços das matérias primas que estavam anomalamente majoradas despencam, refletindo a retração da economia na Europa e nos Estados Unidos. O governo sonega esta realidade trombeteando o saldo favorável apurado em um ano.
Nos marcos de tão dura realidade onde fica a esperança? Na força da democracia, em nós, na imprensa livre, na pressão popular que em curto prazo se tornará visível nas ruas, tão pronto como o povo desperte do engodo a que o induziu o populismo reinante. Este conjunto de forças, e somente ele, imporá um processo de regeneração que nos livre de tantos flagelos.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
A fala do ministro
Avança o processo de desintegração da base governista, societas criminis montada pelo ex-presidente Lula. Nela foram reunidos inúmeros partidos das mais diversas pelagens cujo único elemento de coesão era o loteamento de cargos. Instituiu-se assim em nosso país uma volta, ainda que grotesca, ao regime feudal. O rei entregava ao nobre, duque, conde ou barão, um feudo para que o explorasse a seu alvedrio. Dependendo da força eleitoral de cada grei, eram distribuídos os ministérios. Alguns pelo sistema de porteira fechada, ou seja, com a totalidade dos cargos. Tão pronto como recebia a carta de propriedade, lançava-se o senhor à faina de saquear. Criava para isso uma alfândega interna, por meio da qual passava a receber tributos de empreiteiras e prestadoras de serviço favorecidas por licitações fraudulentas.
Paradigma do sistema, o Ministério dos Transportes foi o primeiro a desmoronar, não resistindo à erosão constante que a máquina de corrupção vem sofrendo desde os tempos do apocalíptico mensalão.
Ontem seu recém caído titular, retomando assento no senado, fez pronunciamento que em sua quase totalidade merece ser desprezado. Vana verba (palavras vãs) diriam os romanos. Salvo a parte em que afirma ter encontrado majoração de quinze bilhões nos projetos, determinada durante o lapso em que se ausentou para fazer campanha no Amazonas. Entendamos: era titular da pasta interinamente o atual ministro senhor Passos. Quem autorizou a majoração? A ministra da Casa Civil, substituindo a atual presidente que se licenciara para a campanha, era Erenice Guerra.
O ministro Nascimento faz uma clara denúncia. O atual ministro determinou a majoração dos projetos, certamente obedecendo a ordens palacianas, com o único objetivo de obter das empreiteiras recursos para a campanha.
É ingênuo acreditar que a faxina comandada pela presidente possa prosperar por si mesma. Somente o aumento da pressão exercida pelo conjunto de forças que se opõem ao atual descalabro poderá determinar o esfacelamento do esquema. A oposição protocolou ontem pedido de CPI que periclita. O notório corrupto Romero Jucá lançou-se a campo para forçar senadores a retirar assinaturas, o que pode ocorrer até a meia noite de quarta feira. A lista conta com o número mínimo, 27. Já houve duas desistências, uma reconsideração, estamos com 26. A luta continua.
Em tempo: Foram retiradas duas assinaturas e a CPI malogrou. Fica clara a falsidade do Governo em seu propósito de faxinar. Novo requerimento será protocolado. A luta continua.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
O blog
Acho que estava louco quando me deixei induzir pelo Edison Bidone e pelo Tiago Meirelles a colocar no ar (no ar?) este blog. Criado o monstro, cumpre alimentá-lo. Escritor de gaveta, trabalho ao acaso, dois romances em andamento, os dois parados. Poemas escritos ao longo da vida e ao longo dela extraviados. De vez em quando me deparo com um, esquecido dentro de um livro, recorte do saudoso Caderno de Sábado do antigo Correio do Povo. Agora não, há um blog no ar, gente freqüentando e... dizer o quê?
Aos sábados tem o Visão Geral com o Muza . É outra coisa. Ali, agrademos ou não, o fato é que a gente se diverte. São charlas descontraídas para as quais não nos preparamos e o que se diz é lastreado na vida. Muza é um grande âncora, sabe como ninguém evitar o “buraco” e em qualquer emergência ele manda botar um samba ou chama os comerciais. Na verdade isso não acontece porque nosso foco principal é a corrupção reinante e, como se sabe, essa é cacimba que não seca.
Mas aqui é outro papo. Trata-se de coisa escrita e pela primeira vez vivo a experiência de produzir para consumo imediato. Estou acostumado a trabalhar textos como quem faz um mosaico. Peça a peça, buscando o melhor encaixe. Ou como quem semeia flores num canteiro. Tempo depois se arrancam os inços e o canteiro melhora em luz, espaço, viço. Mas aqui é emparelhar e soltar como em carreiras de reta.
Assunto que puxa assunto, a ligação às vezes só Freud explicaria, ocorre- me que há no ar um processo de descaracterização de nossa, ia dizer cultura, mas desisto. Essa e outras palavras foram inutilizadas pela “inteligentzia” dominante. Essa é uma vertente que me faz abandonar o que ia dizendo para um desabafo anti-infarto.
Nunca em suas vidas Stanislaw Ponte Preta e o imortal Nelson Rodrigues puderam imaginar que o mar de chavões que nos ameaçava chegaria a isto. Ondão sinistro, mar de mediocridade assassina. Políticas públicas (as há privadas?), construção de projetos, sociedade como um todo, alavancar, passar energia, elite dominante.
Outro viés que assusta é a elevação da notoriedade à condição de bem absoluto. De repente alguém que se tornou conhecido por ter devorado olhos de ovelhas em um desses espetáculos doentes de televisão, transforma-se em emblema e passa a vender a imagem para ser associada a produtos.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Onde estamos metidos?
Assusta imaginar que a banalização do crime contra o erário, por onde contra a pátria, contra o povo, contra os pobres, tenha chegado a um nível tal que um ministro de estado diga o que disse. Ocorre-me agora que, não faz muito, o vice-presidente Michel Temer fez afirmação semelhante.
Onde estamos metidos? Já nosso bizarro ex-presidente afirmou que tudo transcorre no melhor dos mundos, basta tocar a bola para a frente e quando alguém se desviar do caminho é apurar e punir. Como se dissesse: soltamos a cachorrada no rebanho e depois saimos a matá-los campo afora.
Tais e tantas sandices, em qualquer outro cenário, fariam rir. Quando se pensa, porém, que os que as proferem semeiam dor, miséria, abandono, quando se vê a saúde atirada, o povo entregue às mãos dos bandidos, os índices da pátria descendo a padrões de nações flageladas, lágrimas e revolta, não risos, assomam.
Bem mais constrangedor é quando homens probos e reconhecidamente cultos, assumem bandeiras sem qualquer consistência, intrinsecamente débeis, que na prática só fazem desviar a opinião pública da indignação, única fonte da mudança.É o caso do ilustre senador Cristóvam Buarque com seu discurso obssessivo pela educação. Traz ele comparações com a Coréia do Sul, Japão, Ìndia e outras nações desenvolvidas.
Dá a impressão de que o senador desconhece que a educação, tanto quanto a saúde, a segurança, a produção de energia, enfim, toda a atividade do estado, demanda dinheiro. De onde extrair recursos se apesar do oceano que o governo arrecada, lança-se ele na captação por meio da emissão de títulos pelos quais paga juros de 12/5 por cento? Tudo para sustentar um projeto de poder cuja mecânica reles e sórdida reduz-se a uma distribuição debochada de cargos e benesses. Trinta e sete ministérios? Onde estamos metidos?
Batendo na tecla de que priorizar-se a educação é a panacéia, deixa o senador de dizer que o fim da roubalheira e da impunidade são a única via de salvação.