Existe, e quero crer que sempre tenha existido, um tipo de analista
político que prima pela isenção com tanto zelo e cuidado que chega a expandir
delicado odor a cinismo, a acomodação. Sempre alardeando um “a mim ninguém
engana”, volta-se a estéril papel de clarividente, diria de farol.
São maus, são úteis? Antes de mais nada, diremos que exercem direito inerente à democracia. Isto não impede
que os vejamos como linha auxiliar, espécie de quinta coluna do lado pior.
Explico: em política, nas democracias desde logo, haverá sempre um embate
geralmente binário, entre algo que avança e algo que retrocede. Somos livres
para aderir a qualquer desses lados. Claro está que essa adesão nãos nos impõe
encobrir desvios de ética e de moral que partam de protagonistas políticos de
nosso lado. Longe disso. Mas implica sim que pelo conjunto do que dizemos e
fazemos, em maior ou menor grau, segundo nossa atuação, deixemos ver com
razoável clareza qual lado escolhemos.
Já aqueles, os argutos, os que pairam acima das leituras gerais,
conseguem caminhar sobre ovos. Sua marca é não ser. Não são de esquerda, nem de
direita, tampouco do centro. Não concordam com o Estado enxuto, mas muito menos
com o inchado, todavia não simpatizam com os que dizem que essa discussão é
tola, porque o Estado deve ter o tamanho imposto pela eficiência. Adoram
estigmatizar agentes vivos do processo político com ícones do passado. Lacerdinhas
pra cá, lacerdinhas pra lá, sugerem assim uma filosofia fatalista, ou circular,
em que tudo se repete, procurando ver na oposição ao mar de lama vigente uma
ressureição da antiga UDN, e aí esbarram em grosseira ignorância sobre fatos e
circunstâncias que os torna muitas vezes desrespeitosos. Quando chamam o grande
senador paulista Aluísio Nunes de lacerdinha, desrespeitam tanto a Aluísio
quanto a Carlos. Enfim, nossos luminares, em resumido resumo, se me permitem o
pleonasmo, cumprem nítido papel desmobilizador, que, é óbvio, favorece
amplamente o status quo.