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terça-feira, 27 de maio de 2014

MAL SEM CURA


O colunista Reinaldo Azevedo na questão dos crimes praticados pelos militares durante a ditadura, cuja hediondez realça com a precisão e brilho que o caracterizam, entende que os delitos estão cobertos pela lei de anistia. Não penso assim, como talvez o leitor também não pense, ou pense, eis que o pensar, entre nós, ainda é livre e diversificado.

Mal aflorou a opinião do jornalista, caíram-lhe de paus e pedras os rapazes afetados pelo vírus do marxismo modificado. É de doer, é de chorar. Passam-se os anos, o mundo muda, a leitura se amplia e a meninada da luta de classes a repetir jargões numa ladainha sem fim.

Neocon foi o doesto cretino que tentaram colar no lúcido jornalista. Neoconservador seria. Nisso são mestres. Mestres de sinistro ofício que já não tem mais razão de existir.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

PRIMITIVOS

Dificilmente se há de encontrar algo mais cínico do que identificar como primitivismo a hediondez de determinados delitos. Por certo que tão grosseira quão estúpida assertiva descansa sobre a infundada sensação de que o progresso científico, tecnológico, político, possa ter influído em nossa natureza. A todo o momento presenciamos em tempo real, nas coberturas televisivas, as mais horripilantes cenas de carnificina, sadismo, crueldade imotivada e insana.
Essa evidência não impede que olhemos nossos antepassados como mais propensos a cometer as vilanias que cometemos. Porque são toscos? Porque são carentes? Porque sujeitos a todos os perigos? Famintos e expostos às feras, pragas, doenças? No máximo poderiam ser tão cruéis como nós. Mais, por quê?

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O MURO


Existe, e quero crer que sempre tenha existido, um tipo de analista político que prima pela isenção com tanto zelo e cuidado que chega a expandir delicado odor a cinismo, a acomodação. Sempre alardeando um “a mim ninguém engana”, volta-se a estéril papel de clarividente, diria de farol.

São maus, são úteis? Antes de mais nada, diremos que exercem  direito inerente à democracia. Isto não impede que os vejamos como linha auxiliar, espécie de quinta coluna do lado pior. Explico: em política, nas democracias desde logo, haverá sempre um embate geralmente binário, entre algo que avança e algo que retrocede. Somos livres para aderir a qualquer desses lados. Claro está que essa adesão nãos nos impõe encobrir desvios de ética e de moral que partam de protagonistas políticos de nosso lado. Longe disso. Mas implica sim que pelo conjunto do que dizemos e fazemos, em maior ou menor grau, segundo nossa atuação, deixemos ver com razoável clareza qual lado escolhemos.

Já aqueles, os argutos, os que pairam acima das leituras gerais, conseguem caminhar sobre ovos. Sua marca é não ser. Não são de esquerda, nem de direita, tampouco do centro. Não concordam com o Estado enxuto, mas muito menos com o inchado, todavia não simpatizam com os que dizem que essa discussão é tola, porque o Estado deve ter o tamanho imposto pela eficiência. Adoram estigmatizar agentes vivos do processo político com ícones do passado. Lacerdinhas pra cá, lacerdinhas pra lá, sugerem assim uma filosofia fatalista, ou circular, em que tudo se repete, procurando ver na oposição ao mar de lama vigente uma ressureição da antiga UDN, e aí esbarram em grosseira ignorância sobre fatos e circunstâncias que os torna muitas vezes desrespeitosos. Quando chamam o grande senador paulista Aluísio Nunes de lacerdinha, desrespeitam tanto a Aluísio quanto a Carlos. Enfim, nossos luminares, em resumido resumo, se me permitem o pleonasmo, cumprem nítido papel desmobilizador, que, é óbvio, favorece amplamente o status quo.

domingo, 4 de maio de 2014

EMBUSTE


Tem se mostrado recorrente alegação dos governistas de que à oposição faltam propostas. Verdade? Será mesmo disto que se trata? Difícil entender que a um conjunto de forças políticas faleçam propostas, visto que estas, em grande profusão e perfeição crescente, podem ser obtidas a custos relativamente modestos mediante contratação de técnicos competentes. Serviriam, a nosso ver, se a ideia fosse travar batalha de projetos a se entrecruzarem nos céus da multimídia.
Não são propostas, primacialmente, que ganham adesão, são exemplos. É a conduta honrada e eficiente na gestão pública que credencia os dirigentes. Afora isto, o proselitismo soe ser obtido mediante distribuição irresponsável de bondades sem retorno, sem a fonte multiplicadora que as sustente, como o subsidio a tarifas, a distribuição de cargos inúteis, a abundância acintosa de mordomias, a facilitação dos delitos contra o erário. Guerra de propostas? Nada nos parece mais alienante.