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terça-feira, 26 de novembro de 2013

PRISÕES

Em qualquer país medianamente culto e estável, prisioneiro não é assunto. Nos Estados Unidos, Bernard Maddof, ex-presidente da bolsa eletrônica Nasdaq, condenado a mais de cento e cinquenta anos de prisão, sumiu do noticiário tão pronto como se consumou seu julgamento.
Entre nós, dois ou três apenados pelo STF encontram respaldo em importantes veículos para grasnar cansativas ladainhas, em que se declaram vítimas de uma elite incorpórea, digna de figurar em narrativas mitológicas, em meio a ninfas, faunos e unicórnios. Por que isto acontece? Possivelmente mais um caso ligado ao fenômeno que se popularizou como jabuticaba, fruta que, diz-se, só dá no Brasil.
Bem menos difícil do que explicar o ruído em torno das prisões é prever sua consequência. O grosso da tropa que Lula arregimentou sob a denominação de base aliada é avessa a radicalismos. Seu único propósito é apropriar-se do bem público, quando não através do saque, por meio da pródiga distribuição de cargos e benesses. Tudo sob proclamas de amor à lei, ao Estado de Direito, à liberdade de imprensa. Daí que as palavras de ordem incendiárias que emanam da papuda e do Diretório Central do PT, visando a desmoralizar a Justiça, assustam a companheirada e, se não forem contidas, acabarão por provocar deserção em massa.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

NULA NULIDADE



Se a anulação da sessão do congresso que declarou vaga a Presidência da República em 64 expressasse apenas perfeita inocuidade, menos mal. Infelizmente não. Ela traz como consequência a ilação de que o golpe de 64 não seria tão ilegítimo como os fatos até aqui demonstraram. Jango ainda estava em Porto Alegre. Tivesse cruzado a fronteira e tudo estaria bem, na mais doce placidez institucional.
Como se a implantação da ditadura não tivesse ocorrido pela mais escancarada violência. Se o presidente permanecesse em nosso território seria preso, como o foram milhares de brasileiros. Ademais a anulação da sessão que declarou a vacância da presidência quer dizer o quê?  É o velho e ridículo cacoete de retocar a história. A declaração do presidente do congresso, Auro de Moura Andrade, na madrugada do dia 2 de abril de 1964 é um marco sinistro de nossa História, mancha inapagável no rosto de nosso parlamento que de forma alguma deve ser retocada, disfarçada, atenuada. Antes deve ser ano a ano, mês a mês, dia a dia, hora a hora aviventada, posta à luz, para que dela tomem conhecimento as novas gerações.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

2013 15 DE NOVEMBRO ANO I DIA I



O instante em que foram expedidos mandados de prisão dos mensaleiros marcou a contagem de um novo tempo. Desde a descoberta o Brasil esteve abatido pelo saque implacável do dinheiro público. Como rês tomada por parasitas, quase a totalidade do sangue sugado pela praga, viu-se a nação vitimada pela roubalheira que, desde a colônia, porque impune, grassou e se perpetuou.
Já Vieira, em frase de incomparável beleza, bradava do púlpito: “os governadores chegam pobres às Índias ricas e saem ricos das Índias pobres”. Por Índias, Antônio Vieira designava as colônias portuguesas do mundo, o Brasil incluído. De lá até estas prisões de agora não houve trégua. O poder se eternizava em mãos de clãs que o detinham, revezando-se, disputando entre si, mas sempre a sugar a sugar a sugar.
A resistência nunca conseguira golpear de forma decisiva a máquina corruptora. Tinha ela um núcleo vital, até aqui preservado: a impunidade. Este coração foi ferido de morte. É que a corrupção, na dimensão da nossa, não convive com a reprimenda do estado. O vício de apropriar-se do que é público expande-se pelo mundo na razão inversa do nível atingido pelo processo civilizatório. Onde há impunidade, fato comum nos países atrasados, ele se torna calamitoso. Onde vige a lei o fenômeno mostra-se pontual, esporádico, sobretudo sem ramificações, sem estrutura, sem a organicidade mórbida de quadrilhas interligadas. Tampouco se verifica nas democracias consolidadas a articulação entre corrupção e esquema de poder. Entre nós o poder alimenta o roubo e o roubo alimenta o poder.
Disseminou-se no mundo atrasado, onde não por acaso viceja ainda a utopia socialista, a ideia de que o crime é fruto da desigualdade. Isto induz ao total aniquilamento do aparelho repressivo do Estado. Polícia, judiciário e sistema prisional são desprezados pelos governantes já que qualquer pleito por seu fortalecimento é visto como viés direitista. Os presídios em reduzido número povoam-se de pobres diabos, única camada a quem chega o castigo. A bandidagem grossa, hoje claramente um poder paralelo, quando aprisionada, utiliza as celas como instrumento de trabalho, organizando centros de comando onde as famílias de apenados são coagidas pelo terror a colaborar com o crime, multiplicando assim as correntes de transmissão da teia delituosa. Dos delinquentes de colarinho branco, graças à couraça da impunidade, nenhum presídio até agora tivera notícia.
A experiência histórica deixa ver que nunca processo como este, quando determinada ordem é golpeada na cúpula com golpe dessa contundência, pode ser interrompido. Há de prosseguir vigoroso, irreversível, forçando novo patamar em nossa democracia, onde se possa, enfim, respirar um mínimo de decência.

sábado, 16 de novembro de 2013

EXTREMOS



De um lado o culto à ignorância em que se empenham o ex-presidente Lula, alguns setores da intelectualidade e autoridades do Ministério da Educação. De outro, acendrada devoção ao academicismo, com ênfase a toda uma gama de qualificações universitárias, gerando atrofia da improvisação, da criatividade, do arrojo e, o que é pior, a desconstituição da percepção instintiva, do que em termo corrente se diz senso comum.
Embora estas deformações ocorram em todos os campos do conhecimento, cinjo-me ao âmbito da economia, para exemplificar. Neste campo criou-se meio altamente propício ao gênero “enrolation”. Se observarmos a constatação, evidente por si mesma, de que um depósito do qual somente se saca e nada se repõe, tende ao esvaziamento, poderemos nos divertir com as trezentas e setenta e sete mil maneiras com que os mestres do economês conseguem demonstrar o contrário. Usando uma torrente de expressões pseudo-técnicas que se multiplicam como fungos, os novos alquimistas transformam, ou fingem transformar o ferro em ouro.
Não se diga que esta façanha só ocorre entre nós, matutos. Revistas especializadas do grande mundo festejaram a ascensão de Eike Batista ao clube dos bi, com pretensões a tri, mesmo que, a olhos vistos, a histriônica saga do charlatão não passasse de farsa. O “campeão nacional”, na tola expressão bolada pelo marketing presidencial, nos faria rir, se antes não nos fizesse chorar pelos bilhões desviados via BNDES, queimados e roubados nos empreendimentos virtuais do farsante.
Não é diferente a performance bufa do Sr. Guido Mantega, quando quer nos fazer crer que o “bem é um mal e o mal é um bem” como diz a canção. O mal de afanar os recursos dos municípios, via isenções de impostos, é um bem porque ajuda os barões do automóvel e assim garante empregos. Mais: aumenta a arrecadação, né? Essa prestidigitação de mágico infantil não impediu que o Fundo de Participação de Estados e Municípios tenha vindo abaixo, ameaçando de colapso as administrações das unidades federadas, provocando choro e ranger de dentes de prefeitos e governadores. Nunca foi tão atual o desabafo de Cícero: que tempos, que costumes!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

VENEZUELA



A insanidade bolivariana, pouco ou nada diferente da lulista, kircheneirista e, de modo geral, de quantas se pautem pela doutrina autoproclamada de esquerda, chega ao paroxismo na Venezuela. Maduro, tresloucado governante do país, quer fazer-nos crer que o esvaziamento dramático das prateleiras deve-se à sabotagem dos capitalistas, inimigos da revolução. Onde, em que parte do mundo, em que dia, século ou hora viu alguém pessoas ligadas ao comércio ou indústria, sacrificarem seus negócios, condená-los à ruína, por amor a uma causa?
Por estes dias, o governo da Venezuela, manu militari, forçou uma rede de lojas a rebaixar preços pela metade, a varrer, como se costuma dizer. Esse é o preço justo, asseverou Maduro. Ainda que se admitisse, para admitir o absurdo, que tal fosse verdade, forçosa seria a conclusão de que a economia do país estaria sumida na mais profunda desordem. Sabe qualquer pessoa dotada de discernimento que, no comércio, medianamente estável, vence quem tem melhor preço. Isso é lição que já ministravam os antigos fenícios.
Se a coisa já vinha de mal a pior, agora com lojas escancaradas pela milícia para que o povaréu carregue tudo por uma pechincha, parece-me ouvir o toque à degola. Pois é nesse quadro de sombria insegurança que o Brasil, através de seu principal banco, pretende meter recursos do tesouro. A ideia é fornecer dinheiro para que o governo venezuelano pague nossos exportadores já que, à mingua de dólares, o Banco da Venezuela não consegue pagar os exportadores brasileiros, embora retenha os bolívares dos importadores daquela infeliz república.          
Somente a mais trevosa ignorância, se descartarmos provável corrupção, pode explicar semelhante cobertura. A única justificativa plausível, a de identidade ideológica, padece de intrínseca e irremediável debilidade. Que ideologia? Karl Marx se revolveria em seu túmulo se lhe atribuíssem paternidade ou remota e avoenga ligação com semelhante regime. Maduro é um déspota ignorante e primário que em sua desgovernada demagogia chega ao ponto de simular as mais bizarras formas de obscurantismo e crendice. Costuma ver seu ídolo, Hugo Chaves, ora metamorfoseado em pássaro, ora em imagens que se projetam nas paredes. Dá prosseguimento a um governo que conseguiu transformar uma potência petrolífera em nação flagelada. Alguns bilhões de dólares foram gastos em armamento. Diz-se que para debelar a ameaça de uma invasão imperialista. Sofisticadas armas foram entregues em mãos de milícias totalmente despreparadas, insânia a que não se atreveu nenhuma ditadura que não fosse a trágica experiência nazifascista.
É horripilante constatar que Marco Aurélio Garcia, assessor presidencial para assuntos externos, com status de ministro, disse sobre o governo de Maduro: “Eles têm consciência dos problemas em curto, médio e longo prazo no país e estão preocupados em enfrentar, de forma clara e estratégica, as dificuldades históricas da economia venezuelana”.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

CONVÉM LEMBRAR




Premido pelas circunstâncias Luís XVI viu-se compelido a convocar os Estados Gerais. Era isto um embrião de parlamento que servia para mascarar o arbítrio do regime absolutista, então reinante na maior parte da Europa. Na França, não era convocado havia séculos. Consistia em conclave tripartite em que tomavam parte clero, nobreza e plebe, incluída neste segmento a parte esfarrapada da Igreja Católica, conhecida como baixo clero.

Tradicionalmente a convocação dos Estados reduzia-se a mero torneio oratório de que resultava nada. Agora, às vésperas da Revolução que mudou o curso da história, a bizarra assembleia transformou-se em caldeirão fervente. Reuniram-se os representantes dos Estados em luxuoso hotel de Versailles. À frente da tribuna real postaram-se o clero e a nobreza à direita, e a plebe à esquerda.

Que contingente no aglomerado à esquerda era decisivo? Quem lhe punha o calor, a força, o dínamo, a voz, a alma? A burguesia meus pacientes amigos, a burguesia. Insofismável que a esquerda, em todas as acepções do termo, teve em seu nascimento o gene burguês. Artesãos, comerciantes, banqueiros, empresários das frotas mercantis, atraíram os excluídos de toda a espécie para formar o caudal capaz de remover o “ancien regime” que os sufocava.

Muito tempo depois, quando o capitalismo avançava e o processo de acomodação entre capital e trabalho prosseguia, para redundar nos padrões atuais de produção e seguridade social, surgiram, dentro do frentão, oriundo da Revolução, teorias no sentido de que as lutas operárias da Revolução Industrial deveriam redundar na abolição do capitalismo. O socialismo, basicamente marxista, e suas desastrosas experiências no mundo real, deram corpo a uma retórica vã, hoje apenas um eco que percorre o terceiro mundo, de que se apropriam estranhas coalizões de radicais sectários com larápios e demagogos de diversa pelagem.

Dói nos ouvidos ouvir agora uma horda inculta e oportunista manejando com admirável desenvoltura os termos direita e esquerda. De estarrecer que entre nós a pecha de direita comece a ser disparada contra direitos. É direita opor-se ao roubo escancarado e à hipertrofia do executivo;  apegar-se à liberdade; repudiar o crime e a violência; estranhar práticas obscurantistas no ensino. Será que está na hora de convocar os Estados Gerais?

domingo, 10 de novembro de 2013

O PRECURSOR



Corriam os anos quarenta e já circulava um relato em que se prenunciava a teoria do politicamente correto. Era no tempo que se namorava nas portas. Certa moça, “criada” como se dizia à época, após lavar e secar a louça do jantar, empiriquitou-se como pode, passou um rouge e um batonzinho, e se mandou para a porta à espera do príncipe.
Depois de duas balas “Carlitos” que ele trouxera, atreveu-se: posso te perguntar em que trabalhas? Trabalho na charqueada, foi a resposta. Sou condutor de estômagos. Era arrastador de bucho.



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

SERÁ PIADA?



A Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara Municipal de Vereadores, criada para investigar possíveis irregularidades na construção da malsinada Barragem da Arvorezinha, deu pela total inocência das autoridades afetas à obra. Isto quando está em curso investigação onde se envolvem Polícia Federal, MPF e TCU. Brincadeirinha? Estarão os senhores edis fazendo pilhérias? Talvez buscando no humor, ainda que sinistro, distrair-nos da aflitiva encrenca? Faço estas perguntas a sério, sisudamente a sério, dramaticamente a sério. Até porque nada pode existir mais sério do que o problema de abastecimento de água em nossa cidade. Daí que tratar do angustiante malogro da obra fazendo gracinha é por demais impróprio.
Tenho como arraigada convicção que coisas como esta estão ligadas ao clima geral de leniência que afeta a nação em geral e Bagé em particular. Nossa cidade, por razões cuja análise transcende os limites desta abordagem, mergulhou em caldo letal de conformismo. Algo como: se não for para aplaudir cala-te. Vamos festejar, vamos homenagear, vamos exaltar méritos mesmo que mofinos.
Os jornais, honrosa exceção ao Muza e sua coluna, ao Gladimir que já foi defenestrado, não deixam permear sequer uma gota de acidez em seus textos. A intelectualidade pia mais doce que as calhandras. Parece que os meios de comunicação em Bagé, em vez de audiência, aos anunciantes, ofertam lisonja.