João Bosco Abero é advogado e escritor. Participa aos sábados do Programa Visão Geral da Rádio Cultura de Bagé, com comentários sobre política e assuntos gerais.
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terça-feira, 26 de novembro de 2013
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
NULA NULIDADE
Se
a anulação da sessão do congresso que declarou vaga a Presidência da República
em 64 expressasse apenas perfeita inocuidade, menos mal. Infelizmente não. Ela
traz como consequência a ilação de que o golpe de 64 não seria tão ilegítimo como
os fatos até aqui demonstraram. Jango ainda estava em Porto Alegre. Tivesse
cruzado a fronteira e tudo estaria bem, na mais doce placidez institucional.
Como
se a implantação da ditadura não tivesse ocorrido pela mais escancarada
violência. Se o presidente permanecesse em nosso território seria preso, como o
foram milhares de brasileiros. Ademais a anulação da sessão que declarou a
vacância da presidência quer dizer o quê?
É o velho e ridículo cacoete de retocar a história. A declaração do
presidente do congresso, Auro de Moura Andrade, na madrugada do dia 2 de abril
de 1964 é um marco sinistro de nossa História, mancha inapagável no rosto de
nosso parlamento que de forma alguma deve ser retocada, disfarçada, atenuada.
Antes deve ser ano a ano, mês a mês, dia a dia, hora a hora aviventada, posta à
luz, para que dela tomem conhecimento as novas gerações.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
2013 15 DE NOVEMBRO ANO I DIA I
O instante em que
foram expedidos mandados de prisão dos mensaleiros marcou a contagem de um novo
tempo. Desde a descoberta o Brasil esteve abatido pelo saque implacável do
dinheiro público. Como rês tomada por parasitas, quase a totalidade do sangue
sugado pela praga, viu-se a nação vitimada pela roubalheira que, desde a
colônia, porque impune, grassou e se perpetuou.
Já Vieira, em frase
de incomparável beleza, bradava do púlpito: “os governadores chegam pobres às
Índias ricas e saem ricos das Índias pobres”. Por Índias, Antônio Vieira
designava as colônias portuguesas do mundo, o Brasil incluído. De lá até estas
prisões de agora não houve trégua. O poder se eternizava em mãos de clãs que o
detinham, revezando-se, disputando entre si, mas sempre a sugar a sugar a sugar.
A resistência nunca
conseguira golpear de forma decisiva a máquina corruptora. Tinha ela um núcleo
vital, até aqui preservado: a impunidade. Este coração foi ferido de morte. É
que a corrupção, na dimensão da nossa, não convive com a reprimenda do estado. O
vício de apropriar-se do que é público expande-se pelo mundo na razão inversa
do nível atingido pelo processo civilizatório. Onde há impunidade, fato comum
nos países atrasados, ele se torna calamitoso. Onde vige a lei o fenômeno mostra-se
pontual, esporádico, sobretudo sem ramificações, sem estrutura, sem a
organicidade mórbida de quadrilhas interligadas. Tampouco se verifica nas
democracias consolidadas a articulação entre corrupção e esquema de poder.
Entre nós o poder alimenta o roubo e o roubo alimenta o poder.
Disseminou-se no
mundo atrasado, onde não por acaso viceja ainda a utopia socialista, a ideia de
que o crime é fruto da desigualdade. Isto induz ao total aniquilamento do aparelho
repressivo do Estado. Polícia, judiciário e sistema prisional são desprezados
pelos governantes já que qualquer pleito por seu fortalecimento é visto como
viés direitista. Os presídios em reduzido número povoam-se de pobres diabos,
única camada a quem chega o castigo. A bandidagem grossa, hoje claramente um
poder paralelo, quando aprisionada, utiliza as celas como instrumento de
trabalho, organizando centros de comando onde as famílias de apenados são
coagidas pelo terror a colaborar com o crime, multiplicando assim as correntes
de transmissão da teia delituosa. Dos delinquentes de colarinho branco, graças
à couraça da impunidade, nenhum presídio até agora tivera notícia.
A experiência
histórica deixa ver que nunca processo como este, quando determinada ordem é
golpeada na cúpula com golpe dessa contundência, pode ser interrompido. Há de
prosseguir vigoroso, irreversível, forçando novo patamar em nossa democracia,
onde se possa, enfim, respirar um mínimo de decência.
sábado, 16 de novembro de 2013
EXTREMOS
De um lado o culto à ignorância em que se empenham o ex-presidente Lula, alguns setores da
intelectualidade e autoridades do Ministério da Educação. De outro, acendrada
devoção ao academicismo, com ênfase a toda uma gama de qualificações
universitárias, gerando atrofia da improvisação, da criatividade, do arrojo e,
o que é pior, a desconstituição da percepção instintiva, do que em termo
corrente se diz senso comum.
Embora estas
deformações ocorram em todos os campos do conhecimento, cinjo-me ao âmbito da
economia, para exemplificar. Neste campo criou-se meio altamente propício ao
gênero “enrolation”. Se observarmos a constatação, evidente por si mesma, de
que um depósito do qual somente se saca e nada se repõe, tende ao esvaziamento,
poderemos nos divertir com as trezentas e setenta e sete mil maneiras com que
os mestres do economês conseguem demonstrar o contrário. Usando uma torrente de
expressões pseudo-técnicas que se multiplicam como fungos, os novos alquimistas
transformam, ou fingem transformar o ferro em ouro.
Não se diga
que esta façanha só ocorre entre nós, matutos. Revistas especializadas do
grande mundo festejaram a ascensão de Eike Batista ao clube dos bi, com
pretensões a tri, mesmo que, a olhos vistos, a histriônica saga do charlatão
não passasse de farsa. O “campeão nacional”, na tola expressão bolada pelo
marketing presidencial, nos faria rir, se antes não nos fizesse chorar pelos
bilhões desviados via BNDES, queimados e roubados nos empreendimentos virtuais
do farsante.
Não é diferente
a performance bufa do Sr. Guido Mantega, quando quer nos fazer crer que o “bem
é um mal e o mal é um bem” como diz a canção. O mal de afanar os recursos dos
municípios, via isenções de impostos, é um bem porque ajuda os barões do
automóvel e assim garante empregos. Mais: aumenta a arrecadação, né? Essa
prestidigitação de mágico infantil não impediu que o Fundo de Participação de
Estados e Municípios tenha vindo abaixo, ameaçando de colapso as administrações
das unidades federadas, provocando choro e ranger de dentes de prefeitos e
governadores. Nunca foi tão atual o desabafo de Cícero: que tempos, que
costumes!
terça-feira, 12 de novembro de 2013
VENEZUELA
A insanidade bolivariana, pouco ou
nada diferente da lulista, kircheneirista e, de modo geral, de quantas se
pautem pela doutrina autoproclamada de esquerda, chega ao paroxismo na
Venezuela. Maduro, tresloucado governante do país, quer fazer-nos crer que o
esvaziamento dramático das prateleiras deve-se à sabotagem dos capitalistas,
inimigos da revolução. Onde, em que parte do mundo, em que dia, século ou hora
viu alguém pessoas ligadas ao comércio ou indústria, sacrificarem seus
negócios, condená-los à ruína, por amor a uma causa?
Por estes dias, o governo da
Venezuela, manu militari, forçou uma
rede de lojas a rebaixar preços pela metade, a varrer, como se costuma dizer.
Esse é o preço justo, asseverou Maduro. Ainda que se admitisse, para admitir o
absurdo, que tal fosse verdade, forçosa seria a conclusão de que a economia do
país estaria sumida na mais profunda desordem. Sabe qualquer pessoa dotada de
discernimento que, no comércio, medianamente estável, vence quem tem melhor
preço. Isso é lição que já ministravam os antigos fenícios.
Se a coisa já vinha de mal a pior,
agora com lojas escancaradas pela milícia para que o povaréu carregue tudo por
uma pechincha, parece-me ouvir o toque à degola. Pois é nesse quadro de sombria
insegurança que o Brasil, através de seu principal banco, pretende meter
recursos do tesouro. A ideia é fornecer dinheiro para que o governo venezuelano
pague nossos exportadores já que, à mingua de dólares, o Banco da Venezuela não
consegue pagar os exportadores brasileiros, embora retenha os bolívares dos
importadores daquela infeliz república.
Somente a mais trevosa ignorância,
se descartarmos provável corrupção, pode explicar semelhante cobertura. A única
justificativa plausível, a de identidade ideológica, padece de intrínseca e
irremediável debilidade. Que ideologia? Karl Marx se revolveria em seu túmulo
se lhe atribuíssem paternidade ou remota e avoenga ligação com semelhante
regime. Maduro é um déspota ignorante e primário que em sua desgovernada
demagogia chega ao ponto de simular as mais bizarras formas de obscurantismo e
crendice. Costuma ver seu ídolo, Hugo Chaves, ora metamorfoseado em pássaro,
ora em imagens que se projetam nas paredes. Dá prosseguimento a um governo que
conseguiu transformar uma potência petrolífera em nação flagelada. Alguns
bilhões de dólares foram gastos em armamento. Diz-se que para debelar a ameaça de
uma invasão imperialista. Sofisticadas armas foram entregues em mãos de
milícias totalmente despreparadas, insânia a que não se atreveu nenhuma
ditadura que não fosse a trágica experiência nazifascista.
É horripilante constatar que Marco
Aurélio Garcia, assessor presidencial para assuntos externos, com status de
ministro, disse sobre o governo de Maduro: “Eles têm consciência dos problemas
em curto, médio e longo prazo no país e estão preocupados em enfrentar, de
forma clara e estratégica, as dificuldades históricas da economia venezuelana”.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
CONVÉM LEMBRAR
Premido
pelas circunstâncias Luís XVI viu-se compelido a convocar os Estados Gerais.
Era isto um embrião de parlamento que servia para mascarar o arbítrio do regime
absolutista, então reinante na maior parte da Europa. Na França, não era
convocado havia séculos. Consistia em conclave tripartite em que tomavam parte
clero, nobreza e plebe, incluída neste segmento a parte esfarrapada da Igreja
Católica, conhecida como baixo clero.
Tradicionalmente
a convocação dos Estados reduzia-se a mero torneio oratório de que resultava
nada. Agora, às vésperas da Revolução que mudou o curso da história, a bizarra
assembleia transformou-se em caldeirão fervente. Reuniram-se os representantes
dos Estados em luxuoso hotel de Versailles. À frente da tribuna real
postaram-se o clero e a nobreza à direita, e a plebe à esquerda.
Que
contingente no aglomerado à esquerda era decisivo? Quem lhe punha o calor, a
força, o dínamo, a voz, a alma? A burguesia meus pacientes amigos, a burguesia.
Insofismável que a esquerda, em todas as acepções do termo, teve em seu
nascimento o gene burguês. Artesãos, comerciantes, banqueiros, empresários das
frotas mercantis, atraíram os excluídos de toda a espécie para formar o caudal
capaz de remover o “ancien regime” que os sufocava.
Muito
tempo depois, quando o capitalismo avançava e o processo de acomodação entre
capital e trabalho prosseguia, para redundar nos padrões atuais de produção e
seguridade social, surgiram, dentro do frentão, oriundo da Revolução, teorias
no sentido de que as lutas operárias da Revolução Industrial deveriam redundar
na abolição do capitalismo. O socialismo, basicamente marxista, e suas
desastrosas experiências no mundo real, deram corpo a uma retórica vã, hoje
apenas um eco que percorre o terceiro mundo, de que se apropriam estranhas
coalizões de radicais sectários com larápios e demagogos de diversa pelagem.
Dói
nos ouvidos ouvir agora uma horda inculta e oportunista manejando com admirável
desenvoltura os termos direita e esquerda. De estarrecer que entre nós a pecha
de direita comece a ser disparada contra direitos. É direita opor-se ao roubo
escancarado e à hipertrofia do executivo;
apegar-se à liberdade; repudiar o crime e a violência; estranhar
práticas obscurantistas no ensino. Será que está na hora
de convocar os Estados Gerais?
domingo, 10 de novembro de 2013
O PRECURSOR
Corriam
os anos quarenta e já circulava um relato em que se prenunciava a teoria do
politicamente correto. Era no tempo que se namorava nas portas. Certa moça,
“criada” como se dizia à época, após lavar e secar a louça do jantar,
empiriquitou-se como pode, passou um rouge e um batonzinho, e se mandou para a
porta à espera do príncipe.
Depois
de duas balas “Carlitos” que ele trouxera, atreveu-se: posso te perguntar em
que trabalhas? Trabalho na charqueada, foi a resposta. Sou condutor de
estômagos. Era arrastador de bucho.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
SERÁ PIADA?
A Comissão Parlamentar
de Inquérito da Câmara Municipal de Vereadores, criada para investigar
possíveis irregularidades na construção da malsinada Barragem da Arvorezinha,
deu pela total inocência das autoridades afetas à obra. Isto quando está em
curso investigação onde se envolvem Polícia Federal, MPF e TCU. Brincadeirinha?
Estarão os senhores edis fazendo pilhérias? Talvez buscando no humor, ainda que
sinistro, distrair-nos da aflitiva encrenca? Faço estas perguntas a sério,
sisudamente a sério, dramaticamente a sério. Até porque nada pode existir mais
sério do que o problema de abastecimento de água em nossa cidade. Daí que
tratar do angustiante malogro da obra fazendo gracinha é por demais impróprio.
Tenho como arraigada
convicção que coisas como esta estão ligadas ao clima geral de leniência que
afeta a nação em geral e Bagé em particular. Nossa cidade, por razões cuja
análise transcende os limites desta abordagem, mergulhou em caldo letal de
conformismo. Algo como: se não for para aplaudir cala-te. Vamos festejar, vamos
homenagear, vamos exaltar méritos mesmo que mofinos.
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