Existem
formas sutis de colonialismo, ou de opressão, verificáveis até internamente nas
nações. É o caso da influência forçada que uma elite, econômica ou social,
exerce sobre os demais. Na linguagem são inúmeros os exemplos em que uma forma
de ver, própria de setores da intelectualidade vai, pela repetição sistemática,
emanada de cumes culturais ou midiáticos, minando, socavando, erodindo
conteúdos de signos para, desfigurando-os, despojá-los da carga significante e
emocional que lhes era própria. Aos exemplos: quando se dizia “professora”, trabalhava-se
com um espectro significante onde se incluía amor, reverência, identificação
com maternidade, simpatia, disciplina, compartilhamento de pátrio poder, para
citar apenas parte das ideações atinentes ao termo. A elite igualitarista,
filha deformada do marxismo, esbateu o significado da palavra para forçar sua
substituição por “trabalhadora da educação.” Trabalhadora? Era essa a imagem
que fazíamos da professora?
Quando
algum intelectual, filósofo ou artista, fosse exercer seu magistério, dizia-se
que iria proferir palestra, ministrar curso, fazer ou dar conferência, ou
discorrer simplesmente sobre algo de sua especialidade. Um intelectual sabia o
que o distinguia de um mecânico, e vice versa. O preconceito que permeava a
diferença situava-se mal no campo moral e ético e já vinha sendo secularmente
combatido, sem que houvesse necessidade de violentar o sentido das palavras.
Eis que a elite marxista, que se tornara quase hegemônica no meio cultural no
fim do século dezenove e metade do vinte, lançou no mercado o termo oficina.
Oficina de poesia, oficina de teatro, oficina de cinema. A palavra tem algo a
ver com curso de cinema, de poesia, pintura ou qualquer outra modalidade de
arte? A ideia era a de igualar a criação artística ao trabalho manual. A mesma
certamente que levou os ditadores comunistas do sudeste da Ásia a internar
médicos, artistas e oficialidade militar nos arrozais para que convivessem com
os camponeses, a fim de perder a arrogância burguesa.
A
palavra negro, associada a homem, além de designar uma cor de pele, tem,
sobretudo no Brasil, ampla conotação de conteúdo histórico, sociológico,
antropológico, emotivo e, principalmente, cultural. Ninguém evocará o termo
“negro” sem que lhe venham à mente música, literatura, culinária, indignação,
afeto, vultos, Castro Alves, Patrocínio, Jorge Amado, Rui, Gilberto Freire,
Pixinguinha, a lista é infinita, mas a alma pequena. A turminha brava da
esquerda palaciana, a pretexto de combater o racismo, atentou contra a riqueza
vocabular, predando o idioma, patrimônio de todos, sem distinção de classe.
Comparem: negro x afrodescendente.