Muito mais do que
ater-se ao “perigo comunista”, pinçado da retórica infantil do populismo
jango-brizolista, parece-me importante considerar os malefícios da ditadura,
cujas sequelas aí estão, passados cinquenta anos. Aliás, o alegado radicalismo
de Brizola empalidece frente ao programa que se propunha o PT, já em plena
democracia, antes de ser governo.
Não nos venham de
borzeguins ao leito. O que houve em 64 foi um Golpe de Estado, urdido e em
grande parte financiado pelo Departamento de Estado e pelo Pentágono dos
Estados Unidos, com apoio na carcomida oligarquia dos grotões que o PT
caridosamente rebatizou de elite e com a qual se casou, para instalar esse
governo de fisiologismo e corrupção.
O resultado das ditaduras
que a guerra fria espalhou pelo mundo vê-se na matéria diária da imprensa. Mas enquanto
boa parte dos países que passaram pela repressão avança para padrões abertos, a
ensejar desenvolvimento e democracia, neste sombrio cone sul do continente os
estragos permanecem. Entre os males que o arbítrio deixou, avulta o
aniquilamento, para não dizer destruição, da atividade política por longos
vinte anos. Toda uma geração foi privada da escolha de presidente da república,
governadores e prefeitos de inúmeras cidades. No caos que se seguiu à abertura proliferaram
dezenas de partidos, siglas de aluguel, que hoje servem de instrumento da
política aliancista. O processo eleitoral, contaminado pela visão
discricionária, gerou um cipoal de regras que nada permitem. O choque de
correntes, inerente e vital ao jogo democrático, foi sufocado. No lugar do
comício, do rádio, da televisão, das praças, erigiu-se o espaço obrigatório
como único altar. Em torno dele e por ele, celebram-se os mais sórdidos
conchavos.
Falar dos males
econômicos deixados pela ditadura demandaria um livro. Nesta descolorida nota
fique o registro da supressão total da liberdade e dos abomináveis crimes de
homicídio e tortura que só encontram maldade maior na intenção de ocultá-los.