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quinta-feira, 27 de março de 2014

O GOLPE DE ABRIL

Muito mais do que ater-se ao “perigo comunista”, pinçado da retórica infantil do populismo jango-brizolista, parece-me importante considerar os malefícios da ditadura, cujas sequelas aí estão, passados cinquenta anos. Aliás, o alegado radicalismo de Brizola empalidece frente ao programa que se propunha o PT, já em plena democracia, antes de ser governo.
Não nos venham de borzeguins ao leito. O que houve em 64 foi um Golpe de Estado, urdido e em grande parte financiado pelo Departamento de Estado e pelo Pentágono dos Estados Unidos, com apoio na carcomida oligarquia dos grotões que o PT caridosamente rebatizou de elite e com a qual se casou, para instalar esse governo de fisiologismo e corrupção.
O resultado das ditaduras que a guerra fria espalhou pelo mundo vê-se na matéria diária da imprensa. Mas enquanto boa parte dos países que passaram pela repressão avança para padrões abertos, a ensejar desenvolvimento e democracia, neste sombrio cone sul do continente os estragos permanecem. Entre os males que o arbítrio deixou, avulta o aniquilamento, para não dizer destruição, da atividade política por longos vinte anos. Toda uma geração foi privada da escolha de presidente da república, governadores e prefeitos de inúmeras cidades. No caos que se seguiu à abertura proliferaram dezenas de partidos, siglas de aluguel, que hoje servem de instrumento da política aliancista. O processo eleitoral, contaminado pela visão discricionária, gerou um cipoal de regras que nada permitem. O choque de correntes, inerente e vital ao jogo democrático, foi sufocado. No lugar do comício, do rádio, da televisão, das praças, erigiu-se o espaço obrigatório como único altar. Em torno dele e por ele, celebram-se os mais sórdidos conchavos.
Falar dos males econômicos deixados pela ditadura demandaria um livro. Nesta descolorida nota fique o registro da supressão total da liberdade e dos abomináveis crimes de homicídio e tortura que só encontram maldade maior na intenção de ocultá-los.

segunda-feira, 10 de março de 2014

FRIBOI

Há algo podre no reino da Dinamarca, declamou o atormentado príncipe shakespeariano, ao farejar a trama que vitimara seu pai. Há algo podre por aqui, repito eu, eis que sinto um odor repugnante que não me parece ser de carne arruinada.
 
Roberto Carlos, décadas a fio, manteve imagem cuidadosamente cultivada de menino bom, certinho, escrínio de alcandoradas virtudes, no empolado linguajar laudatório de décadas passadas. Como uma espécie de enfeite do prato que o marketing vem servindo vida afora, proclamava a condição de vegetariano, ao que parece, porque respeitava a vida de nossos irmãos ditos irracionais. De repente catapluft.

Aparece o astro, por segundos, declarando-se seduzido por um belo bife e, meio desengonçado, murmura a marca do produto que lhe estão servindo. Dizem, e vou me permitir trabalhar sobre a hipótese, que recebeu vinte e cinco milhões pela figuração.

Parece de evidência solar que essa quantia, ou algo que lhe seja aproximado, jamais se converterá em ganhos para o anunciante, pelo menos em montante que a justifique. Se assim não é, somos obrigados a concluir que a humanidade é mais, infinitamente mais estúpida do que se imagina. O fato de uma estrela da música popular, em quatro segundos, desencadear um incremento de vendas que justifiquem o emprego de quantia superior à instalação de uma planta industrial? Ponho-me no lugar de alvo do reclame. Não posso conceber que alguém se decida por uma marca de carne porque o “rei” dela aproximou sua imagem.

Algo que sequer alcanço explicar está por baixo dessa pantomima. Vinte e cinco milhões para o Roberto Carlos murmurar o nome Friboi, assim mesmo com um sorriso estranho, de quem comeu e não gostou? Por baixo desse arroz...