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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Virgens Mortas


Quando uma virgem morre, uma estrella apparece,
Nova, no velho engaste azul do firmamento, 
E a alma da que morreu de momento em momento,
Na luz da que nasceu palpita e resplandece.
 

O' vós. que, no silencio e no recolhimento
Do campo, conversaes a sós quando anoitece,
Cuidado! - o que dizeis, como um rumor de prece,
Vae sussurrar no céo, levado pelo vento
 

Namorados, que andaes com a bocca transbordando
De beijos, perturbando o campo socegado
E o casto coração das flores inflammando,

- Piedade! ellas veem tudo entre as moitas escuras...
Piedade esse impudor offende o olhar gelado!
Das que viveram sós, das que morreram puras! 

OLAVO BILAC  


Eis o que se pode chamar perfeição. É um soneto de Olavo Bilac, concebido no mais estrito rigor parnasiano, em versos de doze sílabas ditos alexandrinos. No quarteto inicial o autor propõe o tema esbanjando imagens de profundo contraste: morre aparece, nova no velho, alma que morre, luz que resplandece. O segundo quarteto dá início ao desfecho que se firmará no verso final em chave de ouro.
Bilac aborda o drama da virgindade sem desbordar da atmosfera poética. Apenas a emoção das palavras desdobra o tema. Pede que aqueles em quem a vida estua e o amor rebenta respeitem o olhar gelado de quem a morte levou sem o toque do amor.

Os médicos dos irmãos Castro.

A afirmação de que a vinda dos médicos cubanos, para atuar nos grotões dos brasis esquecidos, é melhor do que nada, tem, como todo o dizer simplista, a aparência de verdade. Falso. A má leitura deriva de nos fixarmos num fato, isolando-o do conjunto de coisas, desprezando a interação dinâmica em que tudo tem a ver com tudo.
Pensar num coitado esquecido nas aldeias inacessíveis poder, de repente, contar com o ombro amigo de alguém que, pelo próprio gestual e pelo avental branco, traz alguma esperança parece tornar claro que a vinda dos duvidosos esculápios só pode ser positiva.
Seria, não fosse ela, a vinda dos escravos, a forma mais deslavada de mascarar o quadro de abandono em que se encontra a saúde pública nesta malferida pátria. O governo, a toda a evidência, busca esconder o quadro de horror que mostram os hospitais sucateados, as ambulâncias paradas, a falta de meios, desde algodão e seringas até os mais comezinhos exames, para chegar ao inconcebível naqueles em que o calendário poderia cumprir-se, não fosse o óbito do paciente ocorrido há meses. E que dizer da falta de leitos? A morte no corredor, em total desamparo que não sejam as lágrimas dos acompanhantes.
Da mesma forma como o irremediável ministro Mantega quer resolver a falta de produção estimulando o consumo, seu colega Padilha promete enfrentar o colapso na saúde aumentando o estoque de aventais.

Um comentário:

  1. Parabéns doutor Abero, pela volta ao seu blog, que ele permaneça para sempre, um fraterno abraço.

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