Um país regido pelas normas do capitalismo
está sujeito a uma gama de distorções que, se bem avaliadas, são pétalas de
rosa quando comparadas ao horror do quadro que se vê naqueles em que vigem
experiências ditas socialistas. Tais distorções, diga-se, são proporcionais ao
grau de maturidade ou imaturidade do regime legal vigente. Nas democracias
ainda vacilantes, caso do Brasil e vizinhos, a liberdade de imprensa vê-se algo
turbada pela formação de grupos excessivamente poderosos. Há inegavelmente
algum mal estar pelos perigos inerentes ao gigantismo.
É precisamente nos marcos do acima esboçado
que se gera terrível ameaça. Governos populistas, associados a cúpulas de viés
totalitário, não suportam três minutos de convívio com imprensa livre. Para
suprimir a crítica que teima em existir, mesmo quando o poder sufoca os meios
através dos contratos de propaganda oficial, começa uma tenaz, insidiosa e
letalmente perigosa campanha para matar a liberdade de expressão. Vale tudo. Trava-se
tenebrosa corrida entre a sobrevivência do governo espúrio e a permanência do
livre pensar.
É sem retoques o drama que se desenvolve na
Argentina. A gigante Clarin foi por fim posta abaixo, sob pretexto de que seu
corpo, a bem da democratização dos meios, precisava ser esquartejado e
distribuído entre grupos médios e nanicos. A revista Veja da semana que passou
mostra, em quadro desolador, a forma como foram brindados os despojos. 65% dos
jornais, 80% dos canais de TV aberta, 86 % dos canais de notícias na TV paga,86%
das rádios AM caíram em mãos de aliados do governo. A informação, que se
concentrava majoritariamente em veículo hostil, é manipulada pelos “companheiros”
de tristíssima história. O que deveria ser imprensa vai tomando o viés de mera
caixa de ressonância do velho peleguismo peronista.
Na infeliz Venezuela o ciclo se completou.
Na Argentina remanesce a esperança. No Brasil, com mais sorte, temos a
enfrentar, até aqui, apenas o ovo da serpente. Liberdade total é a única
bandeira compatível com democracia. Distorções serão corrigidas ao longo do
processo de aprimoramento das relações gerais. De ideias em contrário,
parece-nos, devemos guardar prudencial distância.
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