Premido
pelas circunstâncias Luís XVI viu-se compelido a convocar os Estados Gerais.
Era isto um embrião de parlamento que servia para mascarar o arbítrio do regime
absolutista, então reinante na maior parte da Europa. Na França, não era
convocado havia séculos. Consistia em conclave tripartite em que tomavam parte
clero, nobreza e plebe, incluída neste segmento a parte esfarrapada da Igreja
Católica, conhecida como baixo clero.
Tradicionalmente
a convocação dos Estados reduzia-se a mero torneio oratório de que resultava
nada. Agora, às vésperas da Revolução que mudou o curso da história, a bizarra
assembleia transformou-se em caldeirão fervente. Reuniram-se os representantes
dos Estados em luxuoso hotel de Versailles. À frente da tribuna real
postaram-se o clero e a nobreza à direita, e a plebe à esquerda.
Que
contingente no aglomerado à esquerda era decisivo? Quem lhe punha o calor, a
força, o dínamo, a voz, a alma? A burguesia meus pacientes amigos, a burguesia.
Insofismável que a esquerda, em todas as acepções do termo, teve em seu
nascimento o gene burguês. Artesãos, comerciantes, banqueiros, empresários das
frotas mercantis, atraíram os excluídos de toda a espécie para formar o caudal
capaz de remover o “ancien regime” que os sufocava.
Muito
tempo depois, quando o capitalismo avançava e o processo de acomodação entre
capital e trabalho prosseguia, para redundar nos padrões atuais de produção e
seguridade social, surgiram, dentro do frentão, oriundo da Revolução, teorias
no sentido de que as lutas operárias da Revolução Industrial deveriam redundar
na abolição do capitalismo. O socialismo, basicamente marxista, e suas
desastrosas experiências no mundo real, deram corpo a uma retórica vã, hoje
apenas um eco que percorre o terceiro mundo, de que se apropriam estranhas
coalizões de radicais sectários com larápios e demagogos de diversa pelagem.
Dói
nos ouvidos ouvir agora uma horda inculta e oportunista manejando com admirável
desenvoltura os termos direita e esquerda. De estarrecer que entre nós a pecha
de direita comece a ser disparada contra direitos. É direita opor-se ao roubo
escancarado e à hipertrofia do executivo;
apegar-se à liberdade; repudiar o crime e a violência; estranhar
práticas obscurantistas no ensino. Será que está na hora
de convocar os Estados Gerais?
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