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terça-feira, 24 de setembro de 2013

O CINISMO LENINISTA E A COMISSÃO DA VERDADE



Em inúmeras passagens de sua obra escrita, Vladimir Ilitch Lenin atesta a necessidade de serem celebradas tréguas com o inimigo, quando não alianças temporárias com segmentos dissidentes do que definia como “inimigos de classe”. Tais arranjos deveriam durar apenas o tempo em que rendessem acumulação de forças para a revolução. Tão pronto como se evidenciassem nocivos ao avanço em direção ao poder, deveriam ser singelamente abandonados sem qualquer advertência ao aliado traído.
Obviamente essa forma de pensar do “guia dos povos” guarda inteira consonância com o conjunto da doutrina marxista, naquilo que considerava normas de fidelidade como desprezível “moral burguesa”.
Na luta pela redemocratização de nosso país, sem qualquer menosprezo pelos que optaram pela luta armada, resulta inequívoco que a vitória sobre o arbítrio deveu-se, no fundamental, ao papel desenvolvido pelos legalistas, por quantos, pacientemente, teimaram em ampliar, numa luta tenaz e constante, o exíguo espaço que a ditadura se via compelida a conceder.
Ora, é curial que nesse processo, fosse a frente libertária ganhando adeptos que desertavam das fileiras do “regime”. Formou-se assim um “frentão” heterogêneo cuja unidade repousava exclusivamente no afã de restaurar o Estado de Direito. Nada mais explicável que a passagem para a democracia viesse a ocorrer através de um compromisso. Sobreveio a anistia ampla e irrestrita, retirando da apreciação judicial todos os eventuais crimes cometidos durante a ditadura.
Os delitos podem ser separados em puníveis e não puníveis. Os primeiros devem ser investigados pela polícia e pelo Ministério Público. Aqueles cuja punibilidade foi extinta pela prescrição ou por determinação legal, passam a pertencer à história. Somente os historiadores, autênticos desde logo, por imperativo vocacional só se satisfazem com a verdade. A eles, profissionais ou amadores, deve ser confiada a tarefa de trazer à luz os fatos, cuja lembrança é garantia contra o retrocesso.
Daí que não inspirem confiança “comissões” nomeadas pelo Palácio para investigar os fatos ocorridos nos vinte sombrios anos. Investigar ou julgar? Cuidado porque o fantasma de Lenin, presente às reuniões, pode estar caducando. Não ignoremos que os vitoriosos na redemocratização não foram os vanguardistas da classe operária. Foi a burguesia brasileira, políticos, jornalistas, empresários, eclesiásticos. Muitos, entre estes, com destacada atuação no governo de exceção. O pacto celebrado regeu-se pela moral burguesa, que longe de apodrecer como previra Marx, tornou-se ferramenta imprescindível das mais comezinhas relações entre as gentes.

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