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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

MUDANÇAS



De minha formação marxista, hoje renegada, conservo a ideia de Engels sobre a brusquidão de certas mudanças. Divirjo do insigne filósofo em que considero verdadeira a brusquidão para algumas mudanças, não para todas, como queria Engels.
Para o autor de Dialética da Natureza, a mudança sempre se daria por um salto, que ele denominava “salto dialético”, consistente na passagem de uma gradual alteração quantitativa para uma repentina alteração qualitativa. E exemplificava, de forma algo bisonha, com a transformação da água em gelo. Descendo gradualmente a temperatura, a água mantinha-se líquida até atingir o grau zero. Então, bruscamente, ao atingir zero grau, convertia-se em gelo. Não se perguntou o grande pensador onde residia a mudança. De líquida para sólida, a coisa permanecia a mesma: água.
O “salto dialético”, aparte o dogmatismo marxista, é verificável em muitos fenômenos, notadamente os de natureza social. Imperceptível alteração de usos e costumes, de ditos, de enfoques da realidade, a se acumular lentamente, irrompe de repente no comércio humano, para determinar novo padrão de conduta majoritária. A passagem do absolutismo para o liberalismo burguês na Revolução Francesa ilustra com vigor a teoria do salto.
O fim da impunidade entre nós, tornado visível no julgamento do “mensalão”, enquadra-se bem na visão de Engels. Ao longo de décadas a acumulação de pequenas mudanças na teia de relações econômicas e culturais acabou por determinar um salto capaz de arrancar o país da letargia semifeudal em que florescia a corrupção mais aberrante, para uma forma moderna de convívio onde se possa respirar um mínimo de dignidade. Os “saltos dialéticos” costumam ser irreversíveis. Vivamos para ver.


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