De minha formação marxista, hoje
renegada, conservo a ideia de Engels sobre a brusquidão de certas mudanças.
Divirjo do insigne filósofo em que considero verdadeira a brusquidão para
algumas mudanças, não para todas, como queria Engels.
Para o autor de Dialética da Natureza,
a mudança sempre se daria por um salto, que ele denominava “salto dialético”,
consistente na passagem de uma gradual alteração quantitativa para uma
repentina alteração qualitativa. E exemplificava, de forma algo bisonha, com a
transformação da água em
gelo. Descendo gradualmente a temperatura, a água mantinha-se
líquida até atingir o grau zero. Então, bruscamente, ao atingir zero grau,
convertia-se em gelo. Não
se perguntou o grande pensador onde residia a mudança. De líquida para sólida,
a coisa permanecia a mesma: água.
O “salto dialético”, aparte o
dogmatismo marxista, é verificável em muitos fenômenos, notadamente os de
natureza social. Imperceptível alteração de usos e costumes, de ditos, de
enfoques da realidade, a se acumular lentamente, irrompe de repente no comércio
humano, para determinar novo padrão de conduta majoritária. A passagem do
absolutismo para o liberalismo burguês na Revolução Francesa ilustra com vigor
a teoria do salto.
O fim da impunidade entre nós, tornado
visível no julgamento do “mensalão”, enquadra-se bem na visão de Engels. Ao
longo de décadas a acumulação de pequenas mudanças na teia de relações
econômicas e culturais acabou por determinar um salto capaz de arrancar o país
da letargia semifeudal em que florescia a corrupção mais aberrante, para uma
forma moderna de convívio onde se possa respirar um mínimo de dignidade. Os
“saltos dialéticos” costumam ser irreversíveis. Vivamos para ver.
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