Inconsistente
a forma com que a turma que se diz esquerda analisa acontecimentos históricos.
Entre outros, o erro de atribuir ineditismo a fatos que se vêm repetindo ao
longo da sofrida saga humana.
Desde
nossa origem, remota e não muito clara, vimos sofrendo migrações, assimilações
de cultura, aniquilamentos, escravismo, alternando-se vitoriosos e derrotados.
A romanização da Península Itálica nos primórdios da formação do Império Romano
fez-se a custa do aniquilamento de todas as nações adjacentes cujos traços
conservam-se dentro da própria cultura romana.
A
Grécia que se expandira subjugando inúmeros povos, aos quais colonizou e
helenizou, foi por sua vez tragada pelos romanos que se apossaram de seu
território e de sua cultura, para referir apenas episódios menos remotos da
cadeia que nunca se atenuou senão após a última grande guerra, quando tenderam a
se firmar os princípios de soberania e não intervenção.
Por
isso não se pode entender por que a descoberta e colonização de nosso
continente deva ser entendida como façanha particularmente ignominiosa, cujos
episódios de truculência e crueldade tivessem, por algo, se destacado da
milenar e cediça estupidez humana. Querem os engenhosos analistas moralistas
que todos nós, descendentes ou não dos colonizadores, baixemos a cabeça e
abramos as carteiras, para resgatar a dívida contraída com os povos aniquilados
por nossos antepassados. Resulta assim que inocentes pagam pelo mal que não
causaram e recebem a paga felizardos que não foram vítimas.
No
rastro de tão desarrazoado enfoque, surgem outros, como a exacerbação do culto
aos hábitos dos nativos, chegando-se ao extremo de ungir o infanticídio como
patrimônio cultural. Há tribos que costumam sacrificar crianças, seja para
livrarem-se de futuros portadores de deficiência, seja para controle
populacional, ou, quem sabe, por questões puramente ritualísticas. Há quem
legitime essa abominável prática sob fundamento de que é direito dos silvícolas
cultivar tradições e regerem-se pelas próprias leis, ainda que aceitem do
estado comida, medicina e proteção contra eventuais pilhagens. Se o estado
presta ou não presta esses serviços é questão que, obviamente, não se alinha
com as razões deste artigo, figurando como uma desídia a mais, entre as que
afetam segurança, saúde e educação dos demais cidadãos.
Constata-se
assim que analistas adstritos a sistemas não tratam de ajustar suas lupas aos
fatos. Intentam antes forçar os fatos a se enquadrarem no alcance de suas
lupas.
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