Inadequados os termos barbárie ou
selvageria para descrever cenas de horror a envolver torcidas que se destroçam
num assomo sanguinário de fúria. Não há registro de bárbaros ou selvagens, membros
de uma mesma grei ou nação, a se trucidarem por desavenças em disputa de
natureza lúdica. Vi índios que corriam carregando pesadas toras de madeira, ou,
braços entrelaçados, empenhavam-se em deslocar o adversário para trás. Ao
final, perdedores uniam-se aos expectadores nos aplausos e se lhes podia ver
nos rostos a mais cândida adesão ao regozijo dos vencedores.
Bárbaros eram dados a jogos marcados
pela violência das provas, precursoras que foram dos torneios da nobreza
medieval, mas, ao que sei, podiam morrer nos prélios sem que entre os
circunstantes se generalizasse a carnificina.
Nem mesmo o circo romano pode ser
comparado ao que se vê nos estádios, agora arena. Lá, pessoas que para a moral
vigente haviam perdido a condição de gente, os gladiadores, eram adestradas
para lutar, não raro até a morte, para deleite da cidadania. Embora esse
repugnante costume nos abisme, vale a constatação de que as cenas de sangue
circunscreviam-se aos lutadores escravos, sem que plebe nem nobreza, por
ruidosa que fosse sua presença, viessem também a engalfinhar-se.
Não há que duvidar do ineditismo de
que se reveste a estupidez humana nas manifestações de fanatismo por clubes de
futebol. Antes de nada assombra a desproporcionalidade entre a motivação e a
reação. Amor às cores do clube, tudo bem. Mas ao ponto do soco inglês que pode
cegar? Da barra de ferro que pode romper o crânio? Da bala que pode tudo,
incluso matar a quem não era endereçada?
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