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domingo, 26 de janeiro de 2014

OS ROLÊS NA VISÃO DE SANCHO

A agitação juvenil, batizada de rolezinhos, que se organiza nas redes sociais e se dirige aos Shoppings Centers, tem se mostrado rica como campo de ensaio para um sem fim de teses: antropológicas, sociológicas, psicológicas, éticas, artísticas e, sobretudo, políticas.  Já visível ao tempo das cavernas? Fenômeno típico da era da informática? Ascensão horizontal da classe C em direção à B? Moderna visão da velha “luta de classes?” Vá saber, não?
Mas de algo tenho uma visão muito clara: os homens que lidam com os shoppings não estão brincando. Investiram milhões que lhes custaram muito porque, por uma percepção natural, própria dos que nasceram para a coisa, viram que havia multidões que se compraziam em frequentar ambientes limpos e frescos, para deslumbrarem-se com as vitrines, desfrutarem de todo um cenário nouveau riche, jardins improváveis, pisos deslumbrantes, tudo novo, sem história, como para vender artigos e ilusões a um só tempo.
Jamais passaria pela cabeça dos proprietários desses monumentais conglomerados de lojas discriminarem quem quer que seja, porque, pragmáticos por natureza, sabem que isso não pode ser feito nos dias de hoje. Seu negócio é ganhar dinheiro e não fomentar demandas.
Resulta claro assim, de uma clareza de doer, que naquele clima, o dos shoppings digo, não cabem buliçosas invasões de qualquer natureza, sequer a de um séquito de irmãs carmelitas quanto mais as de jovens que tanto podem almejar um beijo como um saque a mão armada.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

CARTILHA FILOSÓFICA (CONTINUAÇÃO)



ARISTÓTELES (384-322. A.C)


Possivelmente jamais haja existido mente cuja amplitude possa ser comparada a de Aristóteles. Misto de pensador e sábio, o discípulo de Platão detinha completo domínio sobre todo o acervo cultural acumulado até os seus dias. A todas as disciplinas em que se distribuía o conhecimento ele trouxe contribuição criadora.
Aristóteles afasta-se de Platão na teoria da precedência das idéias. Longe de separar os conceitos das coisas a que se referem, Aristóteles, repondo a tradição sensorialista dos pré-socráticos, atribui concretude e primariedade à coisa e não ao conceito. Nisto, todavia, ao aprofundar-se na definição da essência das coisas, recai em construção idealista. Aristóteles decompõe a realidade em duas substâncias: matéria e forma. Assim, em um vaso, separa a argila da forma. É a forma o que faz com que um vaso se constitua. Antes existia o barro. Ao ganhar determinada forma, o barro se converte em vaso.
Vê-se que ele busca conferir concretude ao lavor humano, ao ato de moldar que, ao que parece, não pode existir separadamente da coisa moldada.
A visão de Aristóteles, ao não se opor frontalmente às idéias de seu mestre Platão, projetou para o mundo medieval, que veio a suceder a cultura clássica greco-romana, a controvérsia sobre a natureza dos conceitos. A discussão ganhou a alcunha de “Querela dos Universais” e impregnou a filosofia da idade média, como veremos no tópico referente à filosofia da Idade Média.
Como já referido, a obra de Aristóteles traz, acima de tudo, a marca da universalidade. Da política à biologia, passando pela física, pela poética, pela retórica, penetrando a fundo no oceano da metafísica, criou o genial pensador a mais intrigante construção já intentada pelo espírito humano. Acrescente-se, ao que já assombra pelo monumental, que boa parte de seus escritos pode haver desaparecido.
De todo o acervo deixado pelo prodigioso mestre destaca-se, não por ser o mais importante, mas pela perfeição de que se reveste, o tratado Organon. Nessa obra vêm expostos os princípios e as regras que disciplinam o aspecto formal do pensamento humano. É o mundo da lógica, com seus termos, proposições, silogismos e, sobretudo, com as leis que estruturam, limitam e validam o ato de pensar.
Aristóteles fez escola no sentido formal e material do termo. Além da Escola Aristotélica que emana da obra do filósofo, a história registra seu papel de fundador de uma academia, o celebríssimo Liceu, casa de cultura onde lecionou em Atenas.
Por razões afetas ao estudo da história e não da filosofia, a Grécia e suas colônias caíram sob o domínio de Roma. O Império absorveu parte da cultura helênica, mas a filosofia, em todo o seu esplendor especulativo, não seduziu o pragmatismo romano. Apenas o estoicismo, corrente das menos expressivas da contribuição grega, veio a florescer em Roma, notadamente com dois ilustres adeptos dessa escola: Sêneca e Cícero. Ambos, contudo, eram muito mais escritores do que filósofos.
 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

HISTÓRIA QUE SE QUER ESTÓRIA

Inconsistente a forma com que a turma que se diz esquerda analisa acontecimentos históricos. Entre outros, o erro de atribuir ineditismo a fatos que se vêm repetindo ao longo da sofrida saga humana.
Desde nossa origem, remota e não muito clara, vimos sofrendo migrações, assimilações de cultura, aniquilamentos, escravismo, alternando-se vitoriosos e derrotados. A romanização da Península Itálica nos primórdios da formação do Império Romano fez-se a custa do aniquilamento de todas as nações adjacentes cujos traços conservam-se dentro da própria cultura romana.
A Grécia que se expandira subjugando inúmeros povos, aos quais colonizou e helenizou, foi por sua vez tragada pelos romanos que se apossaram de seu território e de sua cultura, para referir apenas episódios menos remotos da cadeia que nunca se atenuou senão após a última grande guerra, quando tenderam a se firmar os princípios de soberania e não intervenção.
Por isso não se pode entender por que a descoberta e colonização de nosso continente deva ser entendida como façanha particularmente ignominiosa, cujos episódios de truculência e crueldade tivessem, por algo, se destacado da milenar e cediça estupidez humana. Querem os engenhosos analistas moralistas que todos nós, descendentes ou não dos colonizadores, baixemos a cabeça e abramos as carteiras, para resgatar a dívida contraída com os povos aniquilados por nossos antepassados. Resulta assim que inocentes pagam pelo mal que não causaram e recebem a paga felizardos que não foram vítimas.
No rastro de tão desarrazoado enfoque, surgem outros, como a exacerbação do culto aos hábitos dos nativos, chegando-se ao extremo de ungir o infanticídio como patrimônio cultural. Há tribos que costumam sacrificar crianças, seja para livrarem-se de futuros portadores de deficiência, seja para controle populacional, ou, quem sabe, por questões puramente ritualísticas. Há quem legitime essa abominável prática sob fundamento de que é direito dos silvícolas cultivar tradições e regerem-se pelas próprias leis, ainda que aceitem do estado comida, medicina e proteção contra eventuais pilhagens. Se o estado presta ou não presta esses serviços é questão que, obviamente, não se alinha com as razões deste artigo, figurando como uma desídia a mais, entre as que afetam segurança, saúde e educação dos demais cidadãos.

Constata-se assim que analistas adstritos a sistemas não tratam de ajustar suas lupas aos fatos. Intentam antes forçar os fatos a se enquadrarem no alcance de suas lupas.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

SINAIS

É hoje em dia muito nítida a influência dos sinais emitidos desde as culminâncias do poder no desenrolar dos acontecimentos do meio político. Dando-se por incontroverso que a base aliada que se formou para respaldar o lulopetismo no parlamento tem como único fator de coesão a prática da corrupção em todas as suas variáveis, qualquer consigna vinda do alto, no sentido da moralização, soa como sinal de alarme.
A ratazana se alvoroça: O quê? Cortar despesas? Demitir CCs? Extinguir ministérios? Suspender obras? Investigar contratos? Querem nos ferrar!
Inútil tentar apagar incêndio com água em saquinhos. É que os ductos pelos quais se emitem os sinais são midiáticos. As mensagens tranquilizadoras, garantindo que é tudo mentirinha, serão secretas e boca-a-boca.
Como a emissão de sinais de probidade, por pressão da opinião pública, torna-se imperiosa, pode ser observado um contínuo e incansável processo de erosão e desagregação das forças populistas.

sábado, 21 de dezembro de 2013

BRUTALIDADE



Inadequados os termos barbárie ou selvageria para descrever cenas de horror a envolver torcidas que se destroçam num assomo sanguinário de fúria. Não há registro de bárbaros ou selvagens, membros de uma mesma grei ou nação, a se trucidarem por desavenças em disputa de natureza lúdica. Vi índios que corriam carregando pesadas toras de madeira, ou, braços entrelaçados, empenhavam-se em deslocar o adversário para trás. Ao final, perdedores uniam-se aos expectadores nos aplausos e se lhes podia ver nos rostos a mais cândida adesão ao regozijo dos vencedores.
Bárbaros eram dados a jogos marcados pela violência das provas, precursoras que foram dos torneios da nobreza medieval, mas, ao que sei, podiam morrer nos prélios sem que entre os circunstantes se generalizasse a carnificina.
Nem mesmo o circo romano pode ser comparado ao que se vê nos estádios, agora arena. Lá, pessoas que para a moral vigente haviam perdido a condição de gente, os gladiadores, eram adestradas para lutar, não raro até a morte, para deleite da cidadania. Embora esse repugnante costume nos abisme, vale a constatação de que as cenas de sangue circunscreviam-se aos lutadores escravos, sem que plebe nem nobreza, por ruidosa que fosse sua presença, viessem também a engalfinhar-se.
Não há que duvidar do ineditismo de que se reveste a estupidez humana nas manifestações de fanatismo por clubes de futebol. Antes de nada assombra a desproporcionalidade entre a motivação e a reação. Amor às cores do clube, tudo bem. Mas ao ponto do soco inglês que pode cegar? Da barra de ferro que pode romper o crânio? Da bala que pode tudo, incluso matar a quem não era endereçada?

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

MARKETING



Certamente não há caldo mais perfeito para o cultivo da cretinice do que esse criado pelas agências de publicidade em torno daquilo que antigamente se chamava reclame. Fácil de entender: a regra fundamental é procurar o máximo de comunicabilidade entre mensagem e alvo, mesmo que para tal o texto ou imagem se reduza ao tosco.
Resulta palmar que nessa limitação quase indigente não poderá florescer o espírito, nada se devendo esperar de sutil, requintado ou belo, exceções aparte. Em profusão proliferam clichês: falar caminhando para passar dinamismo, tirar o paletó para o mesmo efeito, sorrir ainda que para anunciar o desabamento de um prédio que abrigava uma creche.
Na política então? Primeiro prepara-se o candidato para a hipótese de que ele, por natureza, já não seja adequadamente imbecil. Nada, nadíssima do que lhe possa vir à mente será aproveitado. É preciso que o candidato se convença de que ignora por completo aquilo que lhe convém. Sua visão de política, trazida da própria militância, de sua formação, de suas emoções vividas serão incineradas.
Exagero? Como explicar então que um homem como José Serra, preclaro combatente de memoráveis lutas, exímio gestor que a ONU reconheceu como o melhor Ministro da Saúde de determinado ano, tenha dito na campanha passada que ele, Serra, era melhor que a candidata Dilma para dar continuidade à obra de Lula?
Sou dos que acham que o diabo não existe. Mas quando penso nestas coisas confesso que balanço.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

COM DINHEIRO NÃO SE BRINCA



É hoje corrente a percepção de que fatores de ordem subjetiva influem poderosamente na trama mercadológica. A grei investidora, em que pese sua avidez por lucros, arrepia-se e foge da luta ao menor indício de perigo. E, para surpresa nossa, tem a sensibilidade de um artista para sondar a sinceridade dos dirigentes quanto aos rumos que pretendem dar à economia.
É nessa atmosfera, quando o palácio veste de querubim e tange a lira, jurando que ama, amou e amará o lucro honesto, exagerando até em loas ao espírito animal dos empresários, que o PT irrompe na cena e desfralda o sinistro socialismo do século 21, algo que torna palatáveis, por comparação, os planos quinquenais do bolchevismo.
E agora? Até que ponto o PT manda no palácio? Pouco? Muito? Muitíssimo? Pelo sim ou pelo não, haja colchões para guardar a dinheirama.