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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

VALE TUDO



Um país regido pelas normas do capitalismo está sujeito a uma gama de distorções que, se bem avaliadas, são pétalas de rosa quando comparadas ao horror do quadro que se vê naqueles em que vigem experiências ditas socialistas. Tais distorções, diga-se, são proporcionais ao grau de maturidade ou imaturidade do regime legal vigente. Nas democracias ainda vacilantes, caso do Brasil e vizinhos, a liberdade de imprensa vê-se algo turbada pela formação de grupos excessivamente poderosos. Há inegavelmente algum mal estar pelos perigos inerentes ao gigantismo.
É precisamente nos marcos do acima esboçado que se gera terrível ameaça. Governos populistas, associados a cúpulas de viés totalitário, não suportam três minutos de convívio com imprensa livre. Para suprimir a crítica que teima em existir, mesmo quando o poder sufoca os meios através dos contratos de propaganda oficial, começa uma tenaz, insidiosa e letalmente perigosa campanha para matar a liberdade de expressão. Vale tudo. Trava-se tenebrosa corrida entre a sobrevivência do governo espúrio e a permanência do livre pensar.
É sem retoques o drama que se desenvolve na Argentina. A gigante Clarin foi por fim posta abaixo, sob pretexto de que seu corpo, a bem da democratização dos meios, precisava ser esquartejado e distribuído entre grupos médios e nanicos. A revista Veja da semana que passou mostra, em quadro desolador, a forma como foram brindados os despojos. 65% dos jornais, 80% dos canais de TV aberta, 86 % dos canais de notícias na TV paga,86% das rádios AM caíram em mãos de aliados do governo. A informação, que se concentrava majoritariamente em veículo hostil, é manipulada pelos “companheiros” de tristíssima história. O que deveria ser imprensa vai tomando o viés de mera caixa de ressonância do velho peleguismo peronista.
Na infeliz Venezuela o ciclo se completou. Na Argentina remanesce a esperança. No Brasil, com mais sorte, temos a enfrentar, até aqui, apenas o ovo da serpente. Liberdade total é a única bandeira compatível com democracia. Distorções serão corrigidas ao longo do processo de aprimoramento das relações gerais. De ideias em contrário, parece-nos, devemos guardar prudencial distância.

domingo, 3 de novembro de 2013

A DIFERENÇA




O estadista se pergunta o que é bom para o povo, o populista o que o povo quer. Exemplo: o povo quer gasolina barata. O estadista sabe disto. Ele próprio quer gasolina barata. Quem não quer? Mas sabe, como de resto qualquer pessoa sabe, que a gasolina tem que custar aquilo que custa. Haverá obviedade maior? No entanto o populista, atropelando a realidade, baixa o preço do combustível porque isto lhe renderá aplausos.
Por mais simplista que pareça esta prosa, reflete ela nossa indisfarçável e amarga situação. O governo vem sustentando preços de gasolina e diesel abaixo do custo. Isto, aliado a vasto leque de desmandos, em que se inclui corrupção, aparelhamento, gestão desastrosa, para só elencar o grosso, está levando a Petrobras à falência. Nesse quadro, o subpreço dos combustíveis funciona como acelerador da tragédia de muito, e por muitos sinais, anunciada.
Cogita-se agora de aumentar as tarifas por sistema dito de gatilho. As majorações ocorreriam a qualquer momento, acompanhando a flutuação do mercado externo. Os dias passam, a medida baila no noticiário, o ministro da fazenda torce o nariz, o aval da presidente é anunciado e, de repente, desmentido. Como em tudo o mais, instala-se a sensação de beco.
Fosse adotada neste instante, a providência chegaria tarde. Não mais teria ela, em que pese ser inadiável, o condão de reverter a catástrofe. A situação da estatal é insustentável. As promessas do pré-sal exigem generosa porção de credulidade para serem festejadas. Os mais exaltados, entre os arautos do oficialismo, dão cinco anos de espera para que aflorem os primeiros barris. A prudência manda que, ainda trilhando caminho de risonho otimismo, seja dobrado esse prazo. Serão assim dez anos de pesados encargos, de insuportáveis gastos, quando o quadro atual já se mostra aziago.
E o que será o mundo daqui a dez anos? Terão ainda os fósseis o primado da produção de energia? E ainda que tenham destaque, valerão o que requererá o investimento? E as jazidas responderão ao que delas se espera? São perguntas que ocorrem a qualquer mente e de que não pode furtar-se nenhum especialista.
A presidente-candidata precisa do congelamento para manter as pesquisas eleitorais. Não confessa isto, mas deixa permear que o combate à inflação é o principal motivo. Incrível! Admite o governo lisamente que mascara a inflação a pretexto de combatê-la. Acaso acredita alguém que medidas forçadas de contenção, ao preço da ruína da mais importante e maior empresa nacional, poderão deter a espiral?

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

ESTADO DE DIREITO E REPRESSÃO



Toda a norma legal está aparelhada de coercitividade. Diferentemente do preceito moral ou ético, o dispositivo de lei não dá ao destinatário o direito de, impunemente, furtar-se ao seu império. A lei, penal ou cível, tem que ser cumprida sob pena de sanção de natureza igualmente penal ou cível.
Pelo mesmo princípio, as instituições e a ordem pública precisam ser garantidas pelo Estado pelos meios necessários. Nenhuma objeção, tenha ela a fundamentação que tiver, merece ser sequer considerada visto que não podem ser admitidas afirmações que se contradigam. Ora, se o Estado de Direito não pode prescindir da ordem pública e das instituições, admitir-se que a ordem pública e as instituições poderão ser violadas em determinadas circunstâncias, é desvio lógico que não se permite nem a um escolar.
Por tais razões recebem-se como arrepiantes as notícias de que o governo pretende, são palavras da presidente, negociar com os baderneiros, ditos Black blocs. Negociar com quem sai a quebrar vitrines e a incendiar ônibus? Por que não com Marcola e Fernandinho Beira Mar?

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

SEMÂNTICA DO DIABO



Existem formas sutis de colonialismo, ou de opressão, verificáveis até internamente nas nações. É o caso da influência forçada que uma elite, econômica ou social, exerce sobre os demais. Na linguagem são inúmeros os exemplos em que uma forma de ver, própria de setores da intelectualidade vai, pela repetição sistemática, emanada de cumes culturais ou midiáticos, minando, socavando, erodindo conteúdos de signos para, desfigurando-os, despojá-los da carga significante e emocional que lhes era própria. Aos exemplos: quando se dizia “professora”, trabalhava-se com um espectro significante onde se incluía amor, reverência, identificação com maternidade, simpatia, disciplina, compartilhamento de pátrio poder, para citar apenas parte das ideações atinentes ao termo. A elite igualitarista, filha deformada do marxismo, esbateu o significado da palavra para forçar sua substituição por “trabalhadora da educação.” Trabalhadora? Era essa a imagem que fazíamos da professora?
Quando algum intelectual, filósofo ou artista, fosse exercer seu magistério, dizia-se que iria proferir palestra, ministrar curso, fazer ou dar conferência, ou discorrer simplesmente sobre algo de sua especialidade. Um intelectual sabia o que o distinguia de um mecânico, e vice versa. O preconceito que permeava a diferença situava-se mal no campo moral e ético e já vinha sendo secularmente combatido, sem que houvesse necessidade de violentar o sentido das palavras. Eis que a elite marxista, que se tornara quase hegemônica no meio cultural no fim do século dezenove e metade do vinte, lançou no mercado o termo oficina. Oficina de poesia, oficina de teatro, oficina de cinema. A palavra tem algo a ver com curso de cinema, de poesia, pintura ou qualquer outra modalidade de arte? A ideia era a de igualar a criação artística ao trabalho manual. A mesma certamente que levou os ditadores comunistas do sudeste da Ásia a internar médicos, artistas e oficialidade militar nos arrozais para que convivessem com os camponeses, a fim de perder a arrogância burguesa.
A palavra negro, associada a homem, além de designar uma cor de pele, tem, sobretudo no Brasil, ampla conotação de conteúdo histórico, sociológico, antropológico, emotivo e, principalmente, cultural. Ninguém evocará o termo “negro” sem que lhe venham à mente música, literatura, culinária, indignação, afeto, vultos, Castro Alves, Patrocínio, Jorge Amado, Rui, Gilberto Freire, Pixinguinha, a lista é infinita, mas a alma pequena. A turminha brava da esquerda palaciana, a pretexto de combater o racismo, atentou contra a riqueza vocabular, predando o idioma, patrimônio de todos, sem distinção de classe. Comparem: negro x afrodescendente.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

LEILÃO



Fácil acusar de inimigo da pátria quem se opõe ao desgoverno reinante há mais de uma década. É que foi criada e posta em circulação, com a estrita finalidade de caluniar opositores, a fórmula “quanto pior, melhor”. Essa consigna esfarrapada a ninguém seduz e, sejamos sinceros, se por algum grupo foi adotada, grupelho será tão insignificante que “se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”.
Não há quem queira o pior para seu país. O que se não quer é ver e ouvir a zoeira produzida pelo oficialismo em torno de programas de incerto resultado, remoto além de incerto. Nessa ordem de ideias insere-se o leilão do mirífico lençol de petróleo, dito pré-sal. Com avassaladora carga publicitária, por onde se escoa grossa dinheirama, parte superfaturada, o Palácio tonteia o povo, levando-o à ilusão de que somos ricos e de que temos um governo tão afortunado que até a dádiva incomensurável do pré-sal Deus lhe põe no regaço.
O fracasso se anuncia até para os menos sagazes. Fracasso do leilão, bem entendido, e dos demagogos que o urdiram. Vitória da verdade, ponto de partida para qualquer avanço. A cantilena tipo jogral que pregoeiros a soldo soltaram à rosa dos ventos não comoveu as maiores petroleiras do mundo. Tratou-se de semear o mito para colher votos. Seria a jazida nova maravilha: lençol inesgotável de óleo, capaz de catapultar o país para as nuvens, grande entre os grandes, na abastança e na glória. Oportuno citar o venerável provérbio: de fortuna e caridade, metade da metade.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

CARTILHA FILOSÓFICA (continuação)



Platão (428-347 a.C.)



Virando as costas ao acervo deixado por seus predecessores materialistas, seguindo a trilha aberta por Sócrates, Platão sentou as bases da visão idealista do Cosmos, e criou os fundamentos da filosofia escolástica.
A escolástica vigeu por boa parte da Idade Média e teve sua mais alta expressão no cristianismo. Foi no pensamento de Platão, com apoio na lógica aristotélica, que os “doutores da Igreja” fundaram o dogma apostólico.
Influenciado pela exatidão e pela beleza das formulações geométricas, a projetar verdades irrefutáveis, sem que para chegar-se a elas houvesse necessidade da interferência dos sentidos, concebeu Platão a teoria de que o raciocínio era a única fonte do conhecimento.
Foi mais longe: aquilo a que se chega através do raciocínio é a única realidade possível. Mais longe ainda: as coisas sensíveis são destituídas de realidade, sendo apenas sombras das coisas reais. Estas, eternas, perfeitas e imutáveis são percebidas por algo igualmente perfeito, eterno e imutável: a alma. A alma, detentora, desde sempre, do conhecimento das imagens reais, delas vinha a recordar-se no transcurso da vida terrena.
Radicalizando, chegou Platão a ensinar que uma cama, um cavalo, um vaso não passavam de cópias toscas e ilusórias da cama, do cavalo, do vaso, ideais e perfeitos. Isto explica a denominação de “realista” com que passou a ser designada a escola platônica. Realista no sentido de conferir realidade aos conceitos e irrealidade às coisas a eles correspondentes.
Nem mesmo a imensa influência de Aristóteles a atenuar o “realismo” de seu mestre, pode impedir que a visão platônica dominasse a filosofia ocidental até os dias atuais.
Em política, o conservadorismo de Platão é indisfarçável. A democracia ateniense não lhe inspirava simpatia, a julgar pela forma como propunha que fosse organizado o governo, em sua obra A República. O poder deveria ser confiado aos filósofos. A uma espécie de força armada, a que denominava de Guardiães, caberia a manutenção da ordem. Aos cidadãos restantes, comerciantes e artesãos, o trabalho.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

ESCÂNDALO



A fala presidencial de ontem à noite, pirateando a audiência da novela, foi a mais vergonhosa e explícita demonstração de demagogia que jamais imaginei presenciar neste meu “vão discurso humano” como disse Camões. Postos de lado o sucesso ou insucesso do leilão, o que se viu foi uma arenga paranoica da presidente-candidata, lendo, com trejeitos de animadora de programa infantil, um texto ufanista, onde se descrevia, e prometia, país ante o qual o paraíso bíblico seria deserto.
A simples consideração de que a primeira gota a emergir das profundezas tardará cinco anos, já recomendaria parcimônia a quem coubesse comentar o leilão. Coisa, aliás, que em nenhum lugar civilizado seria incumbência do mais alto mandatário. Nada explica, que não seja a triste feição bolivariana em que estamos submersos, a presença da presidente da república em rede nacional a apregoar as excelências de um empreendimento. Mais: a presença de uma candidata à reeleição, lendo um texto ardilosamente confeccionado, com requintes de ilusionismo, para tornar palpável e presente improvável bonança.