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quarta-feira, 23 de abril de 2014

CAPITALISMO VERSUS NADA

Na idade média, no surto mercantilista, na descoberta da máquina a vapor, há quem o situe nas cavernas, o capitalismo tem se revelado a forma de produção mais afim com a natureza humana. Somos apegados a bens, ambiciosos, competitivos, inseguros e, não por outra razão, o capitalismo reflete todas estas misérias. Daí que ao longo da história, em compreensível escapismo a estes problemas inerentes ao convívio humano, surjam as utopias. Mas, desde logo, todas elas se revelaram ruinosas à humanidade.
As experiências que se lhe opuseram resultaram piores do que o capitalismo. Nenhuma, porém, até porque integralmente levada à prática, superou o socialismo em sofrimento e privações. A ideia de que é possível repartir o bolo que resulta do fazer humano em porções equânimes, faliu tragicamente, e há de falir sempre que intentada, porque despegada de todas as demais variáveis, objetivas e subjetivas, que incidem na produção de bens.
Fome, doença, criminalidade, poluição, problemas de mobilidade urbana são males que só têm encontrado minorantes em lugares onde se associam riqueza e gestão, sendo de notória inutilidade indagar a precedência entre uma e outra destas componentes. Dois enfoques, ambos sem nenhuma razão de ser no mundo desenvolvido, onde são encarados em âmbito meramente acadêmico, prosperam nas nações atrasadas, constituindo-se em mote de intermináveis e estéreis pugnas ideológicas: culto às leis de mercado, de um lado, e exacerbação do papel do Estado, de outro. Do primeiro, em nossas cercanias e em tempo recente, não há registro que mereça análise. O segundo, onde se instalaram governos de viés esquerdista, na verdade populistas, tem sido a causa de um rosário de males.
Se por um lado, um estado à mercê das “leis de mercado”, dando-se boca livre ao tubaronato para que pratique todos os delitos imagináveis, é arrematada tolice, de outro, o intervencionismo elementar, tipo preços subvencionados ou tabelados, multiplicação histérica de cargos, aparelhamento de estatais, corrupção à solta, é rota segura para o abismo.
Estes enunciados preliminares servem para que se precipite a conclusão inelutável: para os males do capitalismo um só remédio: democracia. O aprimoramento da máquina de Estado pela maior integração entre povo e seus representantes, nas formas secularmente estruturadas de representação é o que tem feito os prodigiosos avanços em países como Noruega, Finlândia, Nova Zelândia, Dinamarca, Coréia do sul, tantos outros a nos encher de inveja.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O GOLPE DE ABRIL

Muito mais do que ater-se ao “perigo comunista”, pinçado da retórica infantil do populismo jango-brizolista, parece-me importante considerar os malefícios da ditadura, cujas sequelas aí estão, passados cinquenta anos. Aliás, o alegado radicalismo de Brizola empalidece frente ao programa que se propunha o PT, já em plena democracia, antes de ser governo.
Não nos venham de borzeguins ao leito. O que houve em 64 foi um Golpe de Estado, urdido e em grande parte financiado pelo Departamento de Estado e pelo Pentágono dos Estados Unidos, com apoio na carcomida oligarquia dos grotões que o PT caridosamente rebatizou de elite e com a qual se casou, para instalar esse governo de fisiologismo e corrupção.
O resultado das ditaduras que a guerra fria espalhou pelo mundo vê-se na matéria diária da imprensa. Mas enquanto boa parte dos países que passaram pela repressão avança para padrões abertos, a ensejar desenvolvimento e democracia, neste sombrio cone sul do continente os estragos permanecem. Entre os males que o arbítrio deixou, avulta o aniquilamento, para não dizer destruição, da atividade política por longos vinte anos. Toda uma geração foi privada da escolha de presidente da república, governadores e prefeitos de inúmeras cidades. No caos que se seguiu à abertura proliferaram dezenas de partidos, siglas de aluguel, que hoje servem de instrumento da política aliancista. O processo eleitoral, contaminado pela visão discricionária, gerou um cipoal de regras que nada permitem. O choque de correntes, inerente e vital ao jogo democrático, foi sufocado. No lugar do comício, do rádio, da televisão, das praças, erigiu-se o espaço obrigatório como único altar. Em torno dele e por ele, celebram-se os mais sórdidos conchavos.
Falar dos males econômicos deixados pela ditadura demandaria um livro. Nesta descolorida nota fique o registro da supressão total da liberdade e dos abomináveis crimes de homicídio e tortura que só encontram maldade maior na intenção de ocultá-los.

segunda-feira, 10 de março de 2014

FRIBOI

Há algo podre no reino da Dinamarca, declamou o atormentado príncipe shakespeariano, ao farejar a trama que vitimara seu pai. Há algo podre por aqui, repito eu, eis que sinto um odor repugnante que não me parece ser de carne arruinada.
 
Roberto Carlos, décadas a fio, manteve imagem cuidadosamente cultivada de menino bom, certinho, escrínio de alcandoradas virtudes, no empolado linguajar laudatório de décadas passadas. Como uma espécie de enfeite do prato que o marketing vem servindo vida afora, proclamava a condição de vegetariano, ao que parece, porque respeitava a vida de nossos irmãos ditos irracionais. De repente catapluft.

Aparece o astro, por segundos, declarando-se seduzido por um belo bife e, meio desengonçado, murmura a marca do produto que lhe estão servindo. Dizem, e vou me permitir trabalhar sobre a hipótese, que recebeu vinte e cinco milhões pela figuração.

Parece de evidência solar que essa quantia, ou algo que lhe seja aproximado, jamais se converterá em ganhos para o anunciante, pelo menos em montante que a justifique. Se assim não é, somos obrigados a concluir que a humanidade é mais, infinitamente mais estúpida do que se imagina. O fato de uma estrela da música popular, em quatro segundos, desencadear um incremento de vendas que justifiquem o emprego de quantia superior à instalação de uma planta industrial? Ponho-me no lugar de alvo do reclame. Não posso conceber que alguém se decida por uma marca de carne porque o “rei” dela aproximou sua imagem.

Algo que sequer alcanço explicar está por baixo dessa pantomima. Vinte e cinco milhões para o Roberto Carlos murmurar o nome Friboi, assim mesmo com um sorriso estranho, de quem comeu e não gostou? Por baixo desse arroz...

 

 

domingo, 26 de janeiro de 2014

OS ROLÊS NA VISÃO DE SANCHO

A agitação juvenil, batizada de rolezinhos, que se organiza nas redes sociais e se dirige aos Shoppings Centers, tem se mostrado rica como campo de ensaio para um sem fim de teses: antropológicas, sociológicas, psicológicas, éticas, artísticas e, sobretudo, políticas.  Já visível ao tempo das cavernas? Fenômeno típico da era da informática? Ascensão horizontal da classe C em direção à B? Moderna visão da velha “luta de classes?” Vá saber, não?
Mas de algo tenho uma visão muito clara: os homens que lidam com os shoppings não estão brincando. Investiram milhões que lhes custaram muito porque, por uma percepção natural, própria dos que nasceram para a coisa, viram que havia multidões que se compraziam em frequentar ambientes limpos e frescos, para deslumbrarem-se com as vitrines, desfrutarem de todo um cenário nouveau riche, jardins improváveis, pisos deslumbrantes, tudo novo, sem história, como para vender artigos e ilusões a um só tempo.
Jamais passaria pela cabeça dos proprietários desses monumentais conglomerados de lojas discriminarem quem quer que seja, porque, pragmáticos por natureza, sabem que isso não pode ser feito nos dias de hoje. Seu negócio é ganhar dinheiro e não fomentar demandas.
Resulta claro assim, de uma clareza de doer, que naquele clima, o dos shoppings digo, não cabem buliçosas invasões de qualquer natureza, sequer a de um séquito de irmãs carmelitas quanto mais as de jovens que tanto podem almejar um beijo como um saque a mão armada.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

CARTILHA FILOSÓFICA (CONTINUAÇÃO)



ARISTÓTELES (384-322. A.C)


Possivelmente jamais haja existido mente cuja amplitude possa ser comparada a de Aristóteles. Misto de pensador e sábio, o discípulo de Platão detinha completo domínio sobre todo o acervo cultural acumulado até os seus dias. A todas as disciplinas em que se distribuía o conhecimento ele trouxe contribuição criadora.
Aristóteles afasta-se de Platão na teoria da precedência das idéias. Longe de separar os conceitos das coisas a que se referem, Aristóteles, repondo a tradição sensorialista dos pré-socráticos, atribui concretude e primariedade à coisa e não ao conceito. Nisto, todavia, ao aprofundar-se na definição da essência das coisas, recai em construção idealista. Aristóteles decompõe a realidade em duas substâncias: matéria e forma. Assim, em um vaso, separa a argila da forma. É a forma o que faz com que um vaso se constitua. Antes existia o barro. Ao ganhar determinada forma, o barro se converte em vaso.
Vê-se que ele busca conferir concretude ao lavor humano, ao ato de moldar que, ao que parece, não pode existir separadamente da coisa moldada.
A visão de Aristóteles, ao não se opor frontalmente às idéias de seu mestre Platão, projetou para o mundo medieval, que veio a suceder a cultura clássica greco-romana, a controvérsia sobre a natureza dos conceitos. A discussão ganhou a alcunha de “Querela dos Universais” e impregnou a filosofia da idade média, como veremos no tópico referente à filosofia da Idade Média.
Como já referido, a obra de Aristóteles traz, acima de tudo, a marca da universalidade. Da política à biologia, passando pela física, pela poética, pela retórica, penetrando a fundo no oceano da metafísica, criou o genial pensador a mais intrigante construção já intentada pelo espírito humano. Acrescente-se, ao que já assombra pelo monumental, que boa parte de seus escritos pode haver desaparecido.
De todo o acervo deixado pelo prodigioso mestre destaca-se, não por ser o mais importante, mas pela perfeição de que se reveste, o tratado Organon. Nessa obra vêm expostos os princípios e as regras que disciplinam o aspecto formal do pensamento humano. É o mundo da lógica, com seus termos, proposições, silogismos e, sobretudo, com as leis que estruturam, limitam e validam o ato de pensar.
Aristóteles fez escola no sentido formal e material do termo. Além da Escola Aristotélica que emana da obra do filósofo, a história registra seu papel de fundador de uma academia, o celebríssimo Liceu, casa de cultura onde lecionou em Atenas.
Por razões afetas ao estudo da história e não da filosofia, a Grécia e suas colônias caíram sob o domínio de Roma. O Império absorveu parte da cultura helênica, mas a filosofia, em todo o seu esplendor especulativo, não seduziu o pragmatismo romano. Apenas o estoicismo, corrente das menos expressivas da contribuição grega, veio a florescer em Roma, notadamente com dois ilustres adeptos dessa escola: Sêneca e Cícero. Ambos, contudo, eram muito mais escritores do que filósofos.
 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

HISTÓRIA QUE SE QUER ESTÓRIA

Inconsistente a forma com que a turma que se diz esquerda analisa acontecimentos históricos. Entre outros, o erro de atribuir ineditismo a fatos que se vêm repetindo ao longo da sofrida saga humana.
Desde nossa origem, remota e não muito clara, vimos sofrendo migrações, assimilações de cultura, aniquilamentos, escravismo, alternando-se vitoriosos e derrotados. A romanização da Península Itálica nos primórdios da formação do Império Romano fez-se a custa do aniquilamento de todas as nações adjacentes cujos traços conservam-se dentro da própria cultura romana.
A Grécia que se expandira subjugando inúmeros povos, aos quais colonizou e helenizou, foi por sua vez tragada pelos romanos que se apossaram de seu território e de sua cultura, para referir apenas episódios menos remotos da cadeia que nunca se atenuou senão após a última grande guerra, quando tenderam a se firmar os princípios de soberania e não intervenção.
Por isso não se pode entender por que a descoberta e colonização de nosso continente deva ser entendida como façanha particularmente ignominiosa, cujos episódios de truculência e crueldade tivessem, por algo, se destacado da milenar e cediça estupidez humana. Querem os engenhosos analistas moralistas que todos nós, descendentes ou não dos colonizadores, baixemos a cabeça e abramos as carteiras, para resgatar a dívida contraída com os povos aniquilados por nossos antepassados. Resulta assim que inocentes pagam pelo mal que não causaram e recebem a paga felizardos que não foram vítimas.
No rastro de tão desarrazoado enfoque, surgem outros, como a exacerbação do culto aos hábitos dos nativos, chegando-se ao extremo de ungir o infanticídio como patrimônio cultural. Há tribos que costumam sacrificar crianças, seja para livrarem-se de futuros portadores de deficiência, seja para controle populacional, ou, quem sabe, por questões puramente ritualísticas. Há quem legitime essa abominável prática sob fundamento de que é direito dos silvícolas cultivar tradições e regerem-se pelas próprias leis, ainda que aceitem do estado comida, medicina e proteção contra eventuais pilhagens. Se o estado presta ou não presta esses serviços é questão que, obviamente, não se alinha com as razões deste artigo, figurando como uma desídia a mais, entre as que afetam segurança, saúde e educação dos demais cidadãos.

Constata-se assim que analistas adstritos a sistemas não tratam de ajustar suas lupas aos fatos. Intentam antes forçar os fatos a se enquadrarem no alcance de suas lupas.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

SINAIS

É hoje em dia muito nítida a influência dos sinais emitidos desde as culminâncias do poder no desenrolar dos acontecimentos do meio político. Dando-se por incontroverso que a base aliada que se formou para respaldar o lulopetismo no parlamento tem como único fator de coesão a prática da corrupção em todas as suas variáveis, qualquer consigna vinda do alto, no sentido da moralização, soa como sinal de alarme.
A ratazana se alvoroça: O quê? Cortar despesas? Demitir CCs? Extinguir ministérios? Suspender obras? Investigar contratos? Querem nos ferrar!
Inútil tentar apagar incêndio com água em saquinhos. É que os ductos pelos quais se emitem os sinais são midiáticos. As mensagens tranquilizadoras, garantindo que é tudo mentirinha, serão secretas e boca-a-boca.
Como a emissão de sinais de probidade, por pressão da opinião pública, torna-se imperiosa, pode ser observado um contínuo e incansável processo de erosão e desagregação das forças populistas.