A grandiosidade de Os Lusíadas eclipsou a obra de Camões em medida velha, redondilhas e cantigas que lavrou com a mesma genialidade do épico imortal. Claro que isto vale para o público leitor que, além de reduzido, tende a desaparecer nestes dias de escuridão cultural.
Já seria de festejar se ao menos os poetas jovens tivessem algum convívio com a obra do vate em “medida velha”, que é como se costuma designar os versos que compôs com a estrutura medieval de cinco sílabas (redondilha menor) e sete (redondilha maior).
A Semana de Arte Moderna que tanto enriquecimento trouxe para a arte em nosso país deixou infelizmente um efeito colateral que ainda perdura: a idéia de que para fazer poesia atual, livre, não se precisa conhecer a técnica dos clássicos, sequer conhecer suas obras. Vejamos o que se perde:
- Mote alheio
Menina dos olhos verdes
por que me não vedes?
- Voltas
Eles verdes são
e têm por usança
na cor esperança
e nas obras, não.
Vossa condição,
não é de olhos verdes
porque me não vedes.
- Em outra passagem:
Verdes não o são
no que alcanço deles;
verdes são aqueles
que esperança dão.
Se na condição
está serem verdes,
por que me não vedes?
- Mote seu
Descalça vai pela neve:
assi faz quem amor serve
- Voltas
Os privilégios que os reis
não podem dar, pode Amor,
que faz qualquer amador
livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis
ferro, frio, fogo e neve,
tudo sofre quem o serve.
Moça formosa despreza
todo o frio e toda a dor.
(Olhai quanto pode Amor
mais que a própria natureza);
medo, nem delicadeza
lhe impede que passe a neve:
assim faz quem amor serve.
Por mais trabalhos que leve
a tudo se ofreceria;
passa pela neve fria,
mais alva que a própria neve
com todo o frio se atreve,
vede em que fogo ferve
o triste que o Amor serve.
- Para encerrar o quarteto de um soneto, agora em decassílabos:
Eu cantarei de amor tão docemente
por uns termos em si tão concertados,
que dois mil acidentes namorados
faça sentir o peito que não sente.
Amanhã estaremos no Visão Geral com o Muza. Lançaremos a idéia de um encontro na praça para tornar visível nossa indignação com a corrupção reinante. Ainda: “ofreceria” é grafia do próprio Camões.
Continuo achando quixotesca a iniciativa da praça, mas desejo boa sorte e torço para estar errado.
ResponderExcluirEsqueci de comentar seu texto sobre poesia.
ResponderExcluirNa mosca, Sr. Abero. O conhecimento dos clássicos é, realmente, necessário.
Não se esqueça de corrigir amanhã o país referido pelo Sr. no último programa, pois o equívoco diplomático brasileiro (recente) foi em Honduras, não na Nicarágua. E, por favor, chame a atenção para o papel importante do indivíduo (povo é, na essência, abstração!), tão bem representado pelo Sr. com suas argutas ponderações.
Dr. Abero.
ResponderExcluirIdéias não são metais, que se fundem,frases do grande tribuno e conterrâneo de VS, Gaspar S. Martins,o músico diz em sua letra que dormiu na praça,nós diremos vamos a praça para dizer a esses incensatos que somos movidos pela força do vento minuano, nos aguardem.
att Euclydes R. Marinho.
PROGRAMA DE 20/8/2011.
ResponderExcluirSr. Abero:
Como sempre, ótima exposição. Profunda e no ritmo certo para o ouvinte. Elevada e sem qualquer ranço pernóstico.
Entretanto, uma ponderação. Não vejo como condenar - de modo absoluto - os governos pelo simples fato de criticarem os que desejam CPIs. Primeiro. Nem todo requerimento de CPI possui a boa-fé presumida pelo Sr.
Segundo. Usada em demasia ela será aviltada. Seja pela banalização, seja pela ausência de recursos materiais para efetiva investigação.
A defesa entusiamada que o Sr. faz da democracia é muito tocante, sobretudo quando se sabe da sua mais profunda boa-fé. Mas cuidado com o amor à causa. Lembre do passado marxista. A paixão cega e nos leva a ser peremptórios em assuntos complexos, o que, intelectualmente, é como andar na corda bamba. Para dizer o menos.
Boa sorte com a aventura praça. Fui convencido pelo Sr. de que ela talvez não seja mesmo quixotesca. Tomara.