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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ALGO SOBRE POESIA

A grandiosidade de Os Lusíadas eclipsou a obra de Camões em medida velha, redondilhas e cantigas que lavrou com a mesma genialidade do épico imortal. Claro que isto vale para o público leitor que, além de reduzido, tende a desaparecer nestes dias de escuridão cultural.

Já seria de festejar se ao menos os poetas jovens tivessem algum convívio com a obra do vate em “medida velha”, que é como se costuma designar os versos que compôs com a estrutura medieval de cinco sílabas (redondilha menor) e sete (redondilha maior).

A Semana de Arte Moderna que tanto enriquecimento trouxe para a arte em nosso país deixou infelizmente um efeito colateral que ainda perdura: a idéia de que para fazer poesia atual, livre, não se precisa conhecer a técnica dos clássicos, sequer conhecer suas obras. Vejamos o que se perde:


  • Mote alheio


Menina dos olhos verdes

por que me não vedes?


  • Voltas


Eles verdes são

e têm por usança

na cor esperança

e nas obras, não.

Vossa condição,

não é de olhos verdes

porque me não vedes.


  • Em outra passagem:


Verdes não o são

no que alcanço deles;

verdes são aqueles

que esperança dão.

Se na condição

está serem verdes,

por que me não vedes?


  • Mote seu


Descalça vai pela neve:

assi faz quem amor serve


  • Voltas


Os privilégios que os reis

não podem dar, pode Amor,

que faz qualquer amador

livre das humanas leis.

Mortes e guerras cruéis

ferro, frio, fogo e neve,

tudo sofre quem o serve.


Moça formosa despreza

todo o frio e toda a dor.

(Olhai quanto pode Amor

mais que a própria natureza);

medo, nem delicadeza

lhe impede que passe a neve:

assim faz quem amor serve.


Por mais trabalhos que leve

a tudo se ofreceria;

passa pela neve fria,

mais alva que a própria neve

com todo o frio se atreve,

vede em que fogo ferve

o triste que o Amor serve.


  • Para encerrar o quarteto de um soneto, agora em decassílabos:


Eu cantarei de amor tão docemente

por uns termos em si tão concertados,

que dois mil acidentes namorados

faça sentir o peito que não sente.


Amanhã estaremos no Visão Geral com o Muza. Lançaremos a idéia de um encontro na praça para tornar visível nossa indignação com a corrupção reinante. Ainda: “ofreceria” é grafia do próprio Camões.