Martim Fierro, Carlos Gardel, Borges, tangos, o folclore argentino, para citar apenas ícones, influenciaram fortemente o imaginário da cidade. A cultura brasileira, tropical e festiva, sempre encontrou nestas plagas um modificador, espécie de contraponto. Somos algo dramáticos. Nossa crítica é forte. Se em forma de humor, tem um quê de sarcasmo. Inúmeros os tangos de esculacho: garufa, muñeca brava, niño bien, cambalache, pan comido, buzón, dezenas de outros. As letras voltam-se para uma crítica mordaz de usos e costumes. São alvos o alpinista social, o novo rico, o trouxa metido a malandro, a grã-fina, o falso galã, o piolho de rico, o cabotino, enfim. De um tempo a esta parte, essa herança vem sendo atenuada. Talvez pela influência poderosa dos meios de comunicação, centrados em São Paulo e Rio, há uma visível massificação que inunda todo o espectro cultural, perceptível em tudo, sobremodo na música.
Meio século atrás, tanto quanto Tupi e Nacional, eram ouvidas as rádios Splendid, Belgrano, El mundo. Os narradores de futebol espalhafatosos do Rio contrastavam com as narrativas discretas, elegantes, vazadas em linguajar acadêmico dos colegas riopratenses. Ficaram célebres Fioravante na Argentina e Carlos Solé no Uruguai.
Não se imagine que digo estas coisas para confrontar a cultura brasileira com a platina. Menos ainda que sustente estarmos separados da matriz indígena e afro-européia. Viva Carmem Miranda, Jorge Amado, Lins do Rêgo, Graciliano, Pixinguinha, meu Deus! O que quero dizer é que somos do pampa e que por estas plagas, sopra, além do vento gelado, um frio de alma. Ele nos faz algo distantes, discretos, um pouco desconfiados, avessos ao elogio fácil, à exaltação por nada. Olhem estes versos do Ernesto Wayne:
Dentro de mim eu mesmo encontro abrigo
Do vento frio destas tardes baças
Pelos meus olhos tais como vidraças
Minha alma espia como num postigo.
Maria Valéria, personagem de O Tempo e o Vento, poço de ternura e amor pelo clã, era, ao mesmo tempo, quieta, prestante, silenciosa. Há uma passagem do épico de Veríssimo que narra a morte de Fandango, alma da Estância do Angico com sua sanfona e ditos. O jovem doutor Rodrigo Cambará aproxima-se do pai Licurgo, na hora do enterro, e se insinua:
- Não seria o caso de eu dizer algumas palavras?
Licurgo, do fundo de seu laconismo, sussurra:
- Não carece.
Como se Licurgo dissesse: de que valem palavras frente à morte? Deixe que fale o vento assoprando a macega. O silêncio com sua verdade aterradora. O gado que continua a pastar como se Fandango não tivesse morrido.
Muitos de nós muito têm de Licurgo. Romualdo, criação genial de Simões Lopes Neto, longe de ser protótipo do homem do campo, é sua exceção. Barulhento, mentiroso, bravateiro Romualdo fascina com sua prosa, precisamente pela excepcionalidade. Nada como ele para, à volta de um fogo, quebrar a monotonia dos galpões.
Essas coisas me vêm à lembrança quando advirto à minha volta uma onda desfigurante de ufanismo sem causa, oba oba sem fim, elogios recíprocos que se propagam, festival de títulos e de troféus, outorgas sem história, sem tradição, sem causa aparente.Talvez pela mesma vertente instalou-se desoladora falta de crítica e auto-crítica. Textos de pouca luz, nublados por adjetivação copiosa, atestados de metáforas duvidosas, são erigidos em modelos e exaltados até o exagero.
É necessário um contraponto. A cidade precisa de um jornal algo maldito. Não marrom, mas maldito. Que diga verdades, aponte mazelas. Ao menos para que se volte a enxergar a verdade óbvia de que nem todo o poema é maravilhoso, nem todo o quadro deslumbrante, nem todo o discurso eletrizante, nem toda a idéia fecunda. De assim não ser cairá sobre nós espessa nuvem de ignorância.
O Sr. tem razão. Hoje, exalta-se por exaltar. Veja-se o Big Brother, por exemplo.
ResponderExcluirNa política e jornalismo, argumentos sem precisão e pouco profundos são tidos como mantras. O país mergulhado no que o crime tem de mais perigoso (corrupção e milícias), e nossa legislação capenga. Juíza varada a tiros, e a Presidente e o Ministro de Justiça preocupados com fotos e algemas.