Agradeço suas intervenções que muito me estimulam. Penitencio-me por não ter corrigido a troca de Honduras por Nicarágua. Para quem, como eu, acompanhou o drama daquele povo, a que não faltaram lances de comédia bufa, por conta do papel do charlatão Zelaya e de nosso lamentável chanceler Celso Amorim, claro está que a troca consistiu em falha mecânica. Mesmo assim agradeço sua atenta observação.
Não procede a crítica que me faz por não admitir a resistência dos governos a que se instalem CPIs. O que refuto é a argumentação usada para justificar essa resistência. De que a oposição quer criar um fato político. E por que não o criaria? Estranhável seria que pretendesse criar um fato sociológico, financeiro, cultural ou biológico. De que a oposição visa ao desgaste do governo? É de esperar-se outra conduta? Inibir essa intenção é o escopo fundamental de todos os tiranos.
Não presumo a boa-fé das CPIs e tampouco preconizo que elas se multipliquem. À oposição cabe o risco de intentá-las. Seu malogro, se não tiver sustentação e respaldo da opinião pública, acarretará desgaste aos seus propositores. Por outro lado, a resistência descarada do governo à sua instalação e o uso posterior de expedientes condenáveis para impedir que prosperem, desgastam o governo que, por essa resistência e esses expedientes, define-se como corrupto. Na prática, as comissões parlamentares de inquérito são instrumentos insubstituíveis na promoção da alternância de poder, na transparência da ação estatal, no aumento da participação popular no comércio político. Fatores essenciais ao fenômeno democrático.
Por fim respondo a sua bem-humorada alusão ao meu passado marxista para alertar-me para o risco de que me venha a cegar a paixão pela democracia. Sabe o senhor tanto quanto eu que democracia não cega. É como prevenir alguém para o excesso de saúde ou para não abusar da abstinência às drogas. Volte sempre.
Sr. Abero:
ResponderExcluirQuem agradece sou eu. Pela oportunidade de ouvir e ler suas sempre elucidativas manifestações. E, agora, de interagirmos.
Quanto ao erro material cometido pelo Sr. (e disso ninguém está livre, felizmente), a intenção era a de somente noticiá-lo para correção. Aliás, como o Sr. fez a seu colega de programa no último sábado (troca de Ministério em coluna, lembra?).
Por último, embora respeite sua posição quanto às CPIs, considero-a por demais simplificante desse instrumento. Do fenômeno por assim dizer. Mas é uma mera opinião aqui expressada em termos gerais. E não seria de se esperar, em programa de rádio, uma análise por demais profunda. O Sr. arrolou - e bem - argumentos sensatos.
Sobre a parte final de sua manifestação, ouso divergir. Até mesmo pelo simples fato do conceito de democracia estar sempre em construção. Seus limites, quando bem estudados e refletidos, o que tenho certeza o Sr. faz, não são muito precisos (fluem ao sabor das sociedades e do respectivo tempo histórico), salvo se o Sr. entendê-la tão somente como um voto uma pessoa, o que acredito não ser o caso.
Em outras palavras, quando o Sr. dá a sua visão de democracia, tece os seus contornos, a paixão, no argumentar, pode cegar, sim. E nos levar, sobretudo quando não há contraponto, aos picos do tom professoral. A queda daí é grande. Infelizmente, não há excesso de saúde ou abstinência de drogas que evite danos. E quem está imune das paixões? Talvez ela seja o sal da vida. E, Sr. Abero, sal em excesso faz mal. Entretanto, o prato intelectual servido pelo Sr. está no ponto certo, bem temperado. Ou seja, não está salgado. Como diz o homem o televisão, o gourmet: voltaremos!