João Bosco Abero é advogado e escritor. Participa aos sábados do Programa Visão Geral da Rádio Cultura de Bagé, com comentários sobre política e assuntos gerais.
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quarta-feira, 31 de agosto de 2011
BAGÉ NAS RUAS
terça-feira, 23 de agosto de 2011
VAMOS PARA AS RUAS
A quebra da espinha dorsal da associação de bandidos a que, eufemisticamente, emprestou-se o nome de pacto pela governabilidade representou grande avanço. Tal vem permitindo a derrubada de ministros que nem numa peça de ficção poderiam integrar o governo. Paralelamente ao tombo dos corruptos verifica-se o pânico alastrando-se entre as bancadas, de deputados e senadores, que começam a perceber que o alardeado poder de barganha com que pretendiam isolar o palácio era de papel. O governo, embora suspeito, começa a ganhar apoios no congresso e na sociedade, capaz de neutralizar as ameaças dos parlamentares assaltantes. Mas nada disto é suficiente. Se a luta for entregue ao Planalto a corrupção sobreviverá. Novos corruptos serão nomeados, novos esquemas serão montados, outros farsantes serão eleitos. Nada nos restará senão repetir com Dante: “Lasciate ogni speranza voi ch’entrate”[1].
Isto não se dará se nós (nós na real, eu e você que está me lendo) ganharmos a rua e tornarmos visível nossa repulsa à corrupção. Somente quando nossa indignação se tornar visível, através de presença física e multitudinária, as demais forças, imprensa, partidos, sindicatos, congresso, judiciário serão suficientemente potencializadas para que se atinja um novo padrão de convívio. Acabará a impunidade e a corrupção descerá para níveis suportáveis.
Estamos convocando o povo de Bagé, através deste blog, do programa Visão Geral da Rádio Cultura e de outros meios que se oferecerem para encontros na Praça dos Desportos. Ali nos reuniremos para dar início a um amplo movimento de opinião. Isto ocorrerá em finais de semana, possivelmente aos domingos.
A espontaneidade será nossa marca, a indignação nossa argamassa, a criatividade nossa bandeira, o clamor por medidas punitivas aos ladrões nosso objetivo. É fundamental que a dinheirama roubada seja devolvida ao erário. Que os julgamentos dos corruptos cheguem ao fim. Tudo a partir dos instrumentos legais e dos dispositivos repressivos já existentes, sem prejuízo de seu aprimoramento.
Contate conosco. Se tiver alguma idéia melhor para deflagrar o movimento comunique-nos.
[1] DEIXAI TODA A ESPERANÇA , VÓS QUE ENTRASTES. Frase lavrada no frontispício do inferno (Inferno, Canto III, vv. 1-9).
sábado, 20 de agosto de 2011
Resposta ao Anônimo
Agradeço suas intervenções que muito me estimulam. Penitencio-me por não ter corrigido a troca de Honduras por Nicarágua. Para quem, como eu, acompanhou o drama daquele povo, a que não faltaram lances de comédia bufa, por conta do papel do charlatão Zelaya e de nosso lamentável chanceler Celso Amorim, claro está que a troca consistiu em falha mecânica. Mesmo assim agradeço sua atenta observação.
Não procede a crítica que me faz por não admitir a resistência dos governos a que se instalem CPIs. O que refuto é a argumentação usada para justificar essa resistência. De que a oposição quer criar um fato político. E por que não o criaria? Estranhável seria que pretendesse criar um fato sociológico, financeiro, cultural ou biológico. De que a oposição visa ao desgaste do governo? É de esperar-se outra conduta? Inibir essa intenção é o escopo fundamental de todos os tiranos.
Não presumo a boa-fé das CPIs e tampouco preconizo que elas se multipliquem. À oposição cabe o risco de intentá-las. Seu malogro, se não tiver sustentação e respaldo da opinião pública, acarretará desgaste aos seus propositores. Por outro lado, a resistência descarada do governo à sua instalação e o uso posterior de expedientes condenáveis para impedir que prosperem, desgastam o governo que, por essa resistência e esses expedientes, define-se como corrupto. Na prática, as comissões parlamentares de inquérito são instrumentos insubstituíveis na promoção da alternância de poder, na transparência da ação estatal, no aumento da participação popular no comércio político. Fatores essenciais ao fenômeno democrático.
Por fim respondo a sua bem-humorada alusão ao meu passado marxista para alertar-me para o risco de que me venha a cegar a paixão pela democracia. Sabe o senhor tanto quanto eu que democracia não cega. É como prevenir alguém para o excesso de saúde ou para não abusar da abstinência às drogas. Volte sempre.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
ALGO SOBRE POESIA
A grandiosidade de Os Lusíadas eclipsou a obra de Camões em medida velha, redondilhas e cantigas que lavrou com a mesma genialidade do épico imortal. Claro que isto vale para o público leitor que, além de reduzido, tende a desaparecer nestes dias de escuridão cultural.
Já seria de festejar se ao menos os poetas jovens tivessem algum convívio com a obra do vate em “medida velha”, que é como se costuma designar os versos que compôs com a estrutura medieval de cinco sílabas (redondilha menor) e sete (redondilha maior).
A Semana de Arte Moderna que tanto enriquecimento trouxe para a arte em nosso país deixou infelizmente um efeito colateral que ainda perdura: a idéia de que para fazer poesia atual, livre, não se precisa conhecer a técnica dos clássicos, sequer conhecer suas obras. Vejamos o que se perde:
- Mote alheio
Menina dos olhos verdes
por que me não vedes?
- Voltas
Eles verdes são
e têm por usança
na cor esperança
e nas obras, não.
Vossa condição,
não é de olhos verdes
porque me não vedes.
- Em outra passagem:
Verdes não o são
no que alcanço deles;
verdes são aqueles
que esperança dão.
Se na condição
está serem verdes,
por que me não vedes?
- Mote seu
Descalça vai pela neve:
assi faz quem amor serve
- Voltas
Os privilégios que os reis
não podem dar, pode Amor,
que faz qualquer amador
livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis
ferro, frio, fogo e neve,
tudo sofre quem o serve.
Moça formosa despreza
todo o frio e toda a dor.
(Olhai quanto pode Amor
mais que a própria natureza);
medo, nem delicadeza
lhe impede que passe a neve:
assim faz quem amor serve.
Por mais trabalhos que leve
a tudo se ofreceria;
passa pela neve fria,
mais alva que a própria neve
com todo o frio se atreve,
vede em que fogo ferve
o triste que o Amor serve.
- Para encerrar o quarteto de um soneto, agora em decassílabos:
Eu cantarei de amor tão docemente
por uns termos em si tão concertados,
que dois mil acidentes namorados
faça sentir o peito que não sente.
Amanhã estaremos no Visão Geral com o Muza. Lançaremos a idéia de um encontro na praça para tornar visível nossa indignação com a corrupção reinante. Ainda: “ofreceria” é grafia do próprio Camões.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
COMEÇO DO FIM
Começa a ruir a construção sem alicerces que uma oligarquia corrupta erigiu com a finalidade única de roubar. Nenhum dos mecanismos de autodefesa usados pela máquina de corrupção se mostra eficiente. Já não há blindar autoridades caídas nas malhas da Imprensa e do Ministério Público. Escasseia o recurso para manter silentes os deputados, com a liberação das famigeradas emendas ao orçamento e, remate de males, encolhe-se a oferta irresponsável de crédito que mantinha a ilusão de Brasil grande e rico.
Os “movimentos sociais” mantidos com o recurso do erário, com a finalidade de angariar prosélitos, começam a se esgarçar, porque é impossível manter pessoas em torno de uma farsa. Ainda hoje 40 mil mulheres trazidas de todos os confins do Brasil em comboio de 800 ônibus reuniram-se frente ao palácio do Planalto para “trazer reivindicações” em favor de integrantes da Agricultura Familiar. A presidente com chapéu confeccionado pela dirigente do grupo encarnou, muito mal, um papel que misturava Eva Perón com Chapeuzinho Vermelho. Não chegou ao fim sua arenga sem que a audiência ficasse quase deserta. É que seu discurso elencava benesses não sentidas e promessas que não seduzem. Os pelegos que organizaram a marcha participam da farsa, as mulheres não.
Chega-me a esta altura a notícia de que caiu o Ministro da Agricultura, malgrado o total apoio que lhe emprestava a Presidente. Torna-se cada vez mais visível a falsidade do papel de condutora da faxina que lhe querem atribuir. Claro está que não faz sentido, de momento, jogar pedras em Dilma Roussef. Seria no mínimo um trabalho diversionista, isto porque muita gente que lhe empresta o papel de saneadora age de boa fé e engrossa as filas da indignação. Importa reforçar o clamor pela instalação da CPI da Corrupção. A internet vai trazer grande reforço, mas nada pode dispensar nossa presença nas ruas. Vamos para a rua? Eu e o Luís Carlos Deibler estamos pensando em algo que pode começar por um ponto de encontro em uma de nossas praças. Sejamos dois, três, quem sabe quatro, não importa. Somos de Bagé e esta é a terra onde grandes coisas começam do pouco.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
COISAS DA CIDADE
Martim Fierro, Carlos Gardel, Borges, tangos, o folclore argentino, para citar apenas ícones, influenciaram fortemente o imaginário da cidade. A cultura brasileira, tropical e festiva, sempre encontrou nestas plagas um modificador, espécie de contraponto. Somos algo dramáticos. Nossa crítica é forte. Se em forma de humor, tem um quê de sarcasmo. Inúmeros os tangos de esculacho: garufa, muñeca brava, niño bien, cambalache, pan comido, buzón, dezenas de outros. As letras voltam-se para uma crítica mordaz de usos e costumes. São alvos o alpinista social, o novo rico, o trouxa metido a malandro, a grã-fina, o falso galã, o piolho de rico, o cabotino, enfim. De um tempo a esta parte, essa herança vem sendo atenuada. Talvez pela influência poderosa dos meios de comunicação, centrados em São Paulo e Rio, há uma visível massificação que inunda todo o espectro cultural, perceptível em tudo, sobremodo na música.
Meio século atrás, tanto quanto Tupi e Nacional, eram ouvidas as rádios Splendid, Belgrano, El mundo. Os narradores de futebol espalhafatosos do Rio contrastavam com as narrativas discretas, elegantes, vazadas em linguajar acadêmico dos colegas riopratenses. Ficaram célebres Fioravante na Argentina e Carlos Solé no Uruguai.
Não se imagine que digo estas coisas para confrontar a cultura brasileira com a platina. Menos ainda que sustente estarmos separados da matriz indígena e afro-européia. Viva Carmem Miranda, Jorge Amado, Lins do Rêgo, Graciliano, Pixinguinha, meu Deus! O que quero dizer é que somos do pampa e que por estas plagas, sopra, além do vento gelado, um frio de alma. Ele nos faz algo distantes, discretos, um pouco desconfiados, avessos ao elogio fácil, à exaltação por nada. Olhem estes versos do Ernesto Wayne:
Dentro de mim eu mesmo encontro abrigo
Do vento frio destas tardes baças
Pelos meus olhos tais como vidraças
Minha alma espia como num postigo.
Maria Valéria, personagem de O Tempo e o Vento, poço de ternura e amor pelo clã, era, ao mesmo tempo, quieta, prestante, silenciosa. Há uma passagem do épico de Veríssimo que narra a morte de Fandango, alma da Estância do Angico com sua sanfona e ditos. O jovem doutor Rodrigo Cambará aproxima-se do pai Licurgo, na hora do enterro, e se insinua:
- Não seria o caso de eu dizer algumas palavras?
Licurgo, do fundo de seu laconismo, sussurra:
- Não carece.
Como se Licurgo dissesse: de que valem palavras frente à morte? Deixe que fale o vento assoprando a macega. O silêncio com sua verdade aterradora. O gado que continua a pastar como se Fandango não tivesse morrido.
Muitos de nós muito têm de Licurgo. Romualdo, criação genial de Simões Lopes Neto, longe de ser protótipo do homem do campo, é sua exceção. Barulhento, mentiroso, bravateiro Romualdo fascina com sua prosa, precisamente pela excepcionalidade. Nada como ele para, à volta de um fogo, quebrar a monotonia dos galpões.
Essas coisas me vêm à lembrança quando advirto à minha volta uma onda desfigurante de ufanismo sem causa, oba oba sem fim, elogios recíprocos que se propagam, festival de títulos e de troféus, outorgas sem história, sem tradição, sem causa aparente.Talvez pela mesma vertente instalou-se desoladora falta de crítica e auto-crítica. Textos de pouca luz, nublados por adjetivação copiosa, atestados de metáforas duvidosas, são erigidos em modelos e exaltados até o exagero.
É necessário um contraponto. A cidade precisa de um jornal algo maldito. Não marrom, mas maldito. Que diga verdades, aponte mazelas. Ao menos para que se volte a enxergar a verdade óbvia de que nem todo o poema é maravilhoso, nem todo o quadro deslumbrante, nem todo o discurso eletrizante, nem toda a idéia fecunda. De assim não ser cairá sobre nós espessa nuvem de ignorância.
sábado, 13 de agosto de 2011
Novos Protagonistas
O movimento dos policiais e agentes de segurança pela obtenção de um piso salarial prenuncia cadeia de reivindicações, dos mais diversos segmentos, por melhorias salariais e de condições de trabalho. São pleitos legítimos que jaziam latentes sob a capa opressiva das direções apelegadas de sindicatos e associações. A capa se esgarça, se enfraquece, entre outras razões pelo desfazimento da ilusão de fartura que reinava, porque o mundo era rico e o dinheiro fácil.
Policiais, bombeiros e agentes de segurança estão mobilizados. Como convencê-los de que não há dinheiro para o que pedem e há para financiar estádios? Para a compra de jatos a um preço bilionário? Para sustentar 37 ministérios, a maioria inútil? Para manter ONGs bandidas, bichos de quatro bocas a devorar sem trégua o paiol do Tesouro? Sem falar da corrupção que assusta, do desperdício que aniquila.
O povo virá para as ruas e praças para juntar-se à Imprensa e aos indignados. Haverá força para impor a verdadeira faxina. A que envolve os chefes, a que apura e pune.