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sexta-feira, 18 de julho de 2014

MARX PLATÔNICO



Quando Marx rompeu com o que denominava mecanicismo no materialismo estava de fato renegando o materialismo e ingressando de corpo e alma na milenar corrente idealista de pensamento. Sócrates e Platão fundaram o entendimento de que a ideia e não a coisa era o dado primário. Por isso ganharam essa designação: idealistas. Afastavam-se assim do círculo estreito em que os filósofos primitivos haviam encerrado a filosofia, onde a experiência tinha primazia, a partir do que os sentidos permitiam ver, palpar e cheirar. Platão foi longe. Afastou-se a tal ponto do que afirmavam Tales e seus seguidores que formulou a teoria, expressa na célebre parábola da caverna, segundo a qual coisas como mesa, raposa, poeira, vinho não tinham existência real, não eram seres concretos e sim reflexos das ideias a que correspondiam.

Estas formas contraditórias de ver dividiram para sempre a filosofia em campos inconciliáveis: idealismo e materialismo. Marx era discípulo do idealista Hegel. Formava quando acadêmico o famoso círculo dos Jovens Hegelianos. Com vago fundamento em Heráclito, pré-socrático que considerava o movimento a causa de tudo o que existe, Hegel desenvolveu um dos mais estruturados sistemas filosóficos da era moderna. Atribuindo ao espírito a base de seu método, punha-se em consonância com a religião e frontalmente em conflito com o materialismo. A novidade na visão hegeliana consistia na historicidade do real. Segundo ele tudo era regido por um eterno devir que apontava para a perfeição. E o motor desse avanço residiria na contradição ínsita nos fenômenos que os obrigava a evoluir para um equilíbrio precário e ascendente. Formulou assim a teoria segundo a qual toda a afirmação surgida ao espírito enfrentar-se-ia a uma negação. Desse choque resultaria nova afirmação diferente da primeira que, por sua vez, viria a suscitar sua negação e, novamente, outra diferente afirmação. Às fases desse processo denominou tese, antítese e síntese.

Essa tríade inspirou ao ex-hegeliano Marx, já então convertido ao materialismo, a formulação de sua própria escola a que imodestamente denominou de Materialismo Científico ou Materialismo Dialético. É que o materialismo, após o iluminismo e a revolução francesa, afora radicalizar o ateísmo, radicalizara também o culto ao empirismo, à ciência, à experiência em sentido estrito. Por esse prisma tornava-se difícil a compreensão dos problemas ligados à história, submetendo-os a um rigor próprio das ciências naturais e das matemáticas.

Marx apegou-se com paixão ao ateísmo, tanto é que cunhou a conhecida máxima: “a religião é o ópio do povo”. Lembremos que o materialismo, enquanto oposição ao idealismo, não implicava negação de Deus. Já em sua origem, quando surgiu a Escola de Mileto, seus criadores empenharam-se em separar filosofia de religião sem que em seus escritos haja qualquer propósito de se insurgir contra os mitos. Em épocas sucessivas, a aversão ao idealismo casava-se ao anticlericalismo. Mas isto por razões óbvias: o idealismo platônico constituiu-se na base filosófica da religião. Na história da filosofia pensadores são catalogados como materialistas pela única razão de se oporem ao idealismo. Forte exemplo disto o alemão Spinoza para quem a natureza é Deus. Embora o panteísmo de Spinoza possa ser visto como uma forma de materialismo ou, quando menos, um paralelismo com a escola, não há como não reconhecer que, ao divinizar a matéria, o filósofo assume-se como místico.

Não menos relevante para a história do materialismo foi a contribuição trazida pelos monges católicos que a partir do século XI, sob influência de Abelardo, formularam a mais contundente objeção aos postulados platônicos na corrente que veio a ser conhecida por nominalismo. Sustentavam aqueles ilustres pensadores que os “universais”, assim entendidos os conceitos que abrangiam todos os elementos de um mesmo conjunto, não tinham existência real, não passando de meros nomes, (flatus vocis[1]), inventados pelo espírito com o fito de facilitar a comunicação. Somente os particulares, diziam Duns Scot e Guilherme de Ockham, independentemente do gênero a que pertencessem possuíam concretude, vale dizer realidade. Assim, o conceito contido na palavra cavalo só poderia exprimir o real na medida em que fosse aplicado a cada cavalo, sendo mero nome ou artifício de linguagem em expressões como “o cavalo é um animal domesticável”.

Natural que a visão nominalista viesse a se constituir em pressuposto pétreo do materialismo moderno que, como o faz até o momento presente, depõe exclusivamente na ciência a possibilidade de qualquer explicação válida dos fenômenos.

É aqui, precisamente, que a nosso ver começam as peripécias do sistema de Marx. O ex-jovem hegeliano transformara-se em ativista político no fragor das lutas que marcaram o período inicial do capitalismo. Era o tempo dos teares, época em que as fábricas, à medida que livravam a massa campesina e suburbana da fome epidêmica e da morte pelo frio, pelo menos em termos estatísticos, submetiam-nas a exploração até então desconhecida. As jornadas de trabalho eram de 14 e 16 horas, estendendo-se de segunda a domingo. Não existia qualquer resquício de seguridade social e muito menos de medidas de proteção ao trabalho. A escassez de luz e de ar nos pavilhões era o padrão geral.

Enfrentado ao brutal contraste entre os interesses da burguesia ascendente e da massa proletária que gravitava em torno de seus negócios, não via Marx, nos limites da social-democracia em se que agrupavam as correntes reformistas que, de alguma forma se opunham à selvageria da revolução industrial, instrumental político para alterar esse quadro.

Estava impregnado pelo fascínio que lhe despertara a fórmula de Hegel. Toda a coisa é ela mesma e sua contrária, proclamava. A evolução, explicada pela necessidade de superação da contradição ínsita nas coisas, tinha a sedução própria de toda a panaceia, de toda a “chave”, de tudo aquilo que rescende à infalibilidade. Tais encantos não estavam presentes no velho materialismo, nem nas incipientes especulações sociológicas de fundo marcadamente positivista de que Marx via-se cercado.

É neste momento que Marx, em parceria com seu compatriota Engels, decide soprar no barro materialista a fórmula dialética tirada de Hegel, e assumindo-se desassombradamente como gênio, criar o Materialismo Histórico, ou Científico, como passou a ser chamado. Nesta fase o filósofo e seu parceiro são tomados de verdadeira fúria iconoclasta, dedicando-se a demolir toda e qualquer objeção aos dogmas que acabavam de estatuir com base na tríade Hegeliana: tese antítese e síntese. Eram respeitados tão somente os mortos que de alguma maneira tivessem concorrido para o desenvolvimento do materialismo. Embora reverenciado, Feuerbach, de quem Marx e Engels sofreram grande influência, teve, após cinco anos de sua morte, reveladas as restrições que a dupla lhe fazia, como atesta a obra de Marx Teses sobre Feuerbach, escrita desde 1845, mas publicada por Engels em 1888. Era o eminente filósofo, após as devidas ressalvas e loas a seus méritos, criticado por Marx por não perceber o papel da forma de produção no condicionamento do comportamento humano, sendo tal fator, segundo Marx, a força determinante de toda a organização política, moral e cultural da sociedade ao longo da história. Era assim acusado o proeminente pensador de estudar os fatos políticos de forma analítica, objetiva, sem levar em consideração o efeito-causa que sobre eles exerciam as relações estabelecidas entre os sujeitos da produção. A esta altura já era clara a impossibilidade de ser introduzida no materialismo Feuerbachiano a concepção platônica, filtrada em Hegel, de que as idéias, as concepções, ao atuarem no processo tornavam-se materiais. Embora nem Marx, nem Engels, nem os ideólogos posteriores quisessem admiti-lo, a questão da interação entre as idéias e as circunstâncias concretas repunha sobre a mesa a velha “querela dos universais”. Marx, obviamente, não erra ao afirmar que não se podem separar as idéias e concepções das circunstâncias materiais em que elas são geradas. Mas erra sim, e de forma catastrófica, quando vê na irrepreensível construção nominalista um avanço histórico, mas limitante. Segundo Marx os nominalistas não puderam, por limitações históricas, avaliar o papel dos conceitos universais, das idéias, da ação humana a que estavam ligadas, no processo histórico.

Na realidade foi Marx quem não soube avaliar a contribuição do nominalismo pondo fim no devaneio platônico sobre a primariedade da ideia sobre a matéria, nele, devaneio, submergindo por completo, com as graves consequências que veio trazer às lutas do século XIX e XX.  O principio segundo o qual somente o particular guardava realidade, era impeditivo à formulação de Marx de uma história regida por uma lei, a da luta de classes. Opondo a burguesia contra o proletariado, estava Marx, pura e simplesmente opondo dois universais, que como diziam os monges não passavam de flatus vocis.

Sem qualquer diferença palpável dos dogmas religiosos, Marx decide aplicar à interpretação dos fatos históricos, para trás e para frente, os princípios de sua cartilha, o materialismo científico, que por esta condição, a da cientificidade, a de sustentar-se em leis, tão certas como as da física, não podiam ser contestadas. O princípio da contradição no curso da história patenteava-se na luta de classes: escravos x cidadãos na antiguidade clássica, servos x senhores, na idade média, proletários x burguesia na era moderna. Retirava-se assim toda a imponderável complexidade de causas que atuam sobre o social, diacrônica e sincronicamente, para reduzi-las a um simples postulado.

Abundante mostra-se o material colhido ao longo dos anos sobre o estrago produzido pelo marxismo no conjunto de forças que se opôs ao furor da produção capitalista em seus primórdios. Atenhamo-nos ao que pensavam seus ideólogos sobre as reivindicações corporativas do operariado. Eram estas rebaixadas à condição de instrumento precário de arregimentação e acumulação de forças, cuja importância, nem de longe, poderia ofuscar o escopo final da luta: a tomada do poder com o despojamento completo da burguesia de todos os meios de produção e de toda a expressão política.

É palmar que grandes contingentes empenhados em enfrentar a selvageria do capital resistiriam ao enclausuramento a que pretendiam confiná-los os marxistas, daí amplos e preciosos aportes serem queimados nas lutas intestinas que se travavam. A pecha de reformistas, aliados da burguesia, traidores da classe operária tornaram-se jargões correntes nas obras e nos jornais marxistas. É célebre o bilhete em que Engels, desde Londres, queixa-se a Marx de que as trade unions, forma inicial do sindicalismo inglês, estavam transformando massivamente os operários em pequeno-burgueses. Posta de lado certa comicidade contida na mensagem, vê-se nela a reveladora verdade de que quanto mais distante da influencia marxista, melhores frutos colhiam os trabalhadores em seu crucial esforço por melhorar de vida. E, mais uma vez, em radiosa plenitude, evidencia-se a verdade nominalista. Classe Operária nada mais era do que um universal a que Marx pretendia, platonicamente, emprestar realidade. Daí suas conclusões absurdas de que os operários estavam destinados historicamente a libertar a humanidade da exploração do homem pelo homem. A Classe operária isto, a Classe Operária aquilo. Flatus vocis.






[1] Pura emissão fonética.

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