Quando Marx rompeu com o que denominava mecanicismo no
materialismo estava de fato renegando o materialismo e ingressando de corpo e
alma na milenar corrente idealista de pensamento. Sócrates e Platão fundaram o
entendimento de que a ideia e não a coisa era o dado primário. Por isso
ganharam essa designação: idealistas. Afastavam-se assim do círculo estreito em
que os filósofos primitivos haviam encerrado a filosofia, onde a experiência
tinha primazia, a partir do que os sentidos permitiam ver, palpar e cheirar. Platão
foi longe. Afastou-se a tal ponto do que afirmavam Tales e seus seguidores que
formulou a teoria, expressa na célebre parábola da caverna, segundo a qual
coisas como mesa, raposa, poeira, vinho não tinham existência real, não eram
seres concretos e sim reflexos das ideias a que correspondiam.
Estas formas contraditórias de ver dividiram para sempre
a filosofia em campos inconciliáveis: idealismo e materialismo. Marx era
discípulo do idealista Hegel. Formava quando acadêmico o famoso círculo dos
Jovens Hegelianos. Com vago fundamento em Heráclito, pré-socrático que
considerava o movimento a causa de tudo o que existe, Hegel desenvolveu um dos
mais estruturados sistemas filosóficos da era moderna. Atribuindo ao espírito a
base de seu método, punha-se em consonância com a religião e frontalmente em
conflito com o materialismo. A novidade na visão hegeliana consistia na
historicidade do real. Segundo ele tudo era regido por um eterno devir que
apontava para a perfeição. E o motor desse avanço residiria na contradição
ínsita nos fenômenos que os obrigava a evoluir para um equilíbrio precário e
ascendente. Formulou assim a teoria segundo a qual toda a afirmação surgida ao
espírito enfrentar-se-ia a uma negação. Desse choque resultaria nova afirmação
diferente da primeira que, por sua vez, viria a suscitar sua negação e,
novamente, outra diferente afirmação. Às fases desse processo denominou tese,
antítese e síntese.
Essa tríade inspirou ao ex-hegeliano Marx, já então
convertido ao materialismo, a formulação de sua própria escola a que
imodestamente denominou de Materialismo Científico ou Materialismo Dialético. É
que o materialismo, após o iluminismo e a revolução francesa, afora radicalizar
o ateísmo, radicalizara também o culto ao empirismo, à ciência, à experiência
em sentido estrito. Por esse prisma tornava-se difícil a compreensão dos
problemas ligados à história, submetendo-os a um rigor próprio das ciências
naturais e das matemáticas.
Marx apegou-se com paixão ao ateísmo, tanto é que cunhou
a conhecida máxima: “a religião é o ópio do povo”. Lembremos que o
materialismo, enquanto oposição ao idealismo, não implicava negação de Deus. Já
em sua origem, quando surgiu a Escola de Mileto, seus criadores empenharam-se
em separar filosofia de religião sem que em seus escritos haja qualquer
propósito de se insurgir contra os mitos. Em épocas sucessivas, a aversão ao
idealismo casava-se ao anticlericalismo. Mas isto por razões óbvias: o
idealismo platônico constituiu-se na base filosófica da religião. Na história
da filosofia pensadores são catalogados como materialistas pela única razão de
se oporem ao idealismo. Forte exemplo disto o alemão Spinoza para quem a
natureza é Deus. Embora o panteísmo de Spinoza possa ser visto como uma forma
de materialismo ou, quando menos, um paralelismo com a escola, não há como não
reconhecer que, ao divinizar a matéria, o filósofo assume-se como místico.
Não menos relevante para a história do materialismo foi a
contribuição trazida pelos monges católicos que a partir do século XI, sob
influência de Abelardo, formularam a mais contundente objeção aos postulados
platônicos na corrente que veio a ser conhecida por nominalismo. Sustentavam
aqueles ilustres pensadores que os “universais”, assim entendidos os conceitos
que abrangiam todos os elementos de um mesmo conjunto, não tinham existência
real, não passando de meros nomes, (flatus
vocis[1]),
inventados pelo espírito com o fito de facilitar a comunicação. Somente os
particulares, diziam Duns Scot e Guilherme de Ockham, independentemente do
gênero a que pertencessem possuíam concretude, vale dizer realidade. Assim, o
conceito contido na palavra cavalo só poderia exprimir o real na medida em que
fosse aplicado a cada cavalo, sendo mero nome ou artifício de linguagem em
expressões como “o cavalo é um animal domesticável”.
Natural que a visão nominalista viesse a se constituir em
pressuposto pétreo do materialismo moderno que, como o faz até o momento
presente, depõe exclusivamente na ciência a possibilidade de qualquer explicação
válida dos fenômenos.
É aqui, precisamente, que a nosso ver começam as
peripécias do sistema de Marx. O ex-jovem hegeliano transformara-se em ativista
político no fragor das lutas que marcaram o período inicial do capitalismo. Era
o tempo dos teares, época em que as fábricas, à medida que livravam a massa
campesina e suburbana da fome epidêmica e da morte pelo frio, pelo menos em
termos estatísticos, submetiam-nas a exploração até então desconhecida. As
jornadas de trabalho eram de 14 e 16 horas, estendendo-se de segunda a domingo.
Não existia qualquer resquício de seguridade social e muito menos de medidas de
proteção ao trabalho. A escassez de luz e de ar nos pavilhões era o padrão
geral.
Enfrentado ao brutal contraste entre os interesses da burguesia
ascendente e da massa proletária que gravitava em torno de seus negócios, não
via Marx, nos limites da social-democracia em se que agrupavam as correntes
reformistas que, de alguma forma se opunham à selvageria da revolução
industrial, instrumental político para alterar esse quadro.
Estava impregnado pelo fascínio que lhe despertara a
fórmula de Hegel. Toda a coisa é ela mesma e sua contrária, proclamava. A
evolução, explicada pela necessidade de superação da contradição ínsita nas
coisas, tinha a sedução própria de toda a panaceia, de toda a “chave”, de tudo
aquilo que rescende à infalibilidade. Tais encantos não estavam presentes no
velho materialismo, nem nas incipientes especulações sociológicas de fundo
marcadamente positivista de que Marx via-se cercado.
É neste momento que Marx, em parceria com seu compatriota
Engels, decide soprar no barro materialista a fórmula dialética tirada de
Hegel, e assumindo-se desassombradamente como gênio, criar o Materialismo
Histórico, ou Científico, como passou a ser chamado. Nesta fase o filósofo e
seu parceiro são tomados de verdadeira fúria iconoclasta, dedicando-se a
demolir toda e qualquer objeção aos dogmas que acabavam de estatuir com base na
tríade Hegeliana: tese antítese e síntese. Eram respeitados tão somente os
mortos que de alguma maneira tivessem concorrido para o desenvolvimento do
materialismo. Embora reverenciado, Feuerbach, de quem Marx e Engels sofreram
grande influência, teve, após cinco anos de sua morte, reveladas as restrições
que a dupla lhe fazia, como atesta a obra de Marx Teses sobre Feuerbach,
escrita desde 1845, mas publicada por Engels em 1888. Era o eminente filósofo,
após as devidas ressalvas e loas a seus méritos, criticado por Marx por não
perceber o papel da forma de produção no condicionamento do comportamento
humano, sendo tal fator, segundo Marx, a força determinante de toda a
organização política, moral e cultural da sociedade ao longo da história. Era
assim acusado o proeminente pensador de estudar os fatos políticos de forma analítica,
objetiva, sem levar em consideração o efeito-causa que sobre eles exerciam as
relações estabelecidas entre os sujeitos da produção. A esta altura já era
clara a impossibilidade de ser introduzida no materialismo Feuerbachiano a
concepção platônica, filtrada em Hegel, de que as idéias, as concepções, ao
atuarem no processo tornavam-se materiais. Embora nem Marx, nem Engels, nem os
ideólogos posteriores quisessem admiti-lo, a questão da interação entre as
idéias e as circunstâncias concretas repunha sobre a mesa a velha “querela dos
universais”. Marx, obviamente, não erra ao afirmar que não se podem separar as
idéias e concepções das circunstâncias materiais em que elas são geradas. Mas
erra sim, e de forma catastrófica, quando vê na irrepreensível construção
nominalista um avanço histórico, mas limitante. Segundo Marx os nominalistas
não puderam, por limitações históricas, avaliar o papel dos conceitos
universais, das idéias, da ação humana a que estavam ligadas, no processo
histórico.
Na realidade foi Marx quem não soube avaliar a
contribuição do nominalismo pondo fim no devaneio platônico sobre a
primariedade da ideia sobre a matéria, nele, devaneio, submergindo por
completo, com as graves consequências que veio trazer às lutas do século XIX e
XX. O principio segundo o qual somente o
particular guardava realidade, era impeditivo à formulação de Marx de uma
história regida por uma lei, a da luta de classes. Opondo a burguesia contra o
proletariado, estava Marx, pura e simplesmente opondo dois universais, que como
diziam os monges não passavam de flatus
vocis.
Sem qualquer diferença palpável dos dogmas religiosos,
Marx decide aplicar à interpretação dos fatos históricos, para trás e para
frente, os princípios de sua cartilha, o materialismo científico, que por esta
condição, a da cientificidade, a de sustentar-se em leis, tão certas como as da
física, não podiam ser contestadas. O princípio da contradição no curso da
história patenteava-se na luta de classes: escravos x cidadãos na antiguidade
clássica, servos x senhores, na idade média, proletários x burguesia na era
moderna. Retirava-se assim toda a imponderável complexidade de causas que atuam
sobre o social, diacrônica e sincronicamente, para reduzi-las a um simples
postulado.
Abundante mostra-se o material colhido ao longo dos anos
sobre o estrago produzido pelo marxismo no conjunto de forças que se opôs ao
furor da produção capitalista em seus primórdios. Atenhamo-nos ao que pensavam
seus ideólogos sobre as reivindicações corporativas do operariado. Eram estas
rebaixadas à condição de instrumento precário de arregimentação e acumulação de
forças, cuja importância, nem de longe, poderia ofuscar o escopo final da luta:
a tomada do poder com o despojamento completo da burguesia de todos os meios de
produção e de toda a expressão política.
É palmar que grandes contingentes empenhados em enfrentar
a selvageria do capital resistiriam ao enclausuramento a que pretendiam confiná-los
os marxistas, daí amplos e preciosos aportes serem queimados nas lutas intestinas
que se travavam. A pecha de reformistas, aliados da burguesia, traidores da
classe operária tornaram-se jargões correntes nas obras e nos jornais
marxistas. É célebre o bilhete em que Engels, desde Londres, queixa-se a Marx
de que as trade unions, forma inicial do sindicalismo inglês, estavam
transformando massivamente os operários em pequeno-burgueses. Posta de lado
certa comicidade contida na mensagem, vê-se nela a reveladora verdade de que
quanto mais distante da influencia marxista, melhores frutos colhiam os
trabalhadores em seu crucial esforço por melhorar de vida. E, mais uma vez, em
radiosa plenitude, evidencia-se a verdade nominalista. Classe Operária nada
mais era do que um universal a que Marx pretendia, platonicamente, emprestar
realidade. Daí suas conclusões absurdas de que os operários estavam destinados
historicamente a libertar a humanidade da exploração do homem pelo homem. A
Classe operária isto, a Classe Operária aquilo. Flatus vocis.
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