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domingo, 29 de junho de 2014

CRIATURAS E CRIADOR



É na literatura de terror que a oposição criatura/criador ganha seu maior poder de contraste e não para trazer algum toque nobilitante a qualquer dos polos. Frankenstein e criatura sempre são invocados para configurar relação constrangedora. Por isso causou grande surpresa a proclamação de Lula de que era o criador de Dilma e surpreendente por igual haver ela exaltado o privilégio de ter sido criada por tão bizarro demiurgo, quando, ao menos, poderia ter se valido do silêncio. As falas ocorreram na recente convenção do PT, sábado 21.
Natural entre crentes das diversas seitas a aceitação da relação criador/criatura. Afinal, quando se crê em Deus todo o temor reverencial é pouco. No mais, quando alguém, pretendendo homenagear pessoa a quem muito deve lhe atribui papel de criador, geralmente, ainda que de forma insincera, ouve veemente recusa. O normal é aquele que muito fez pelo discípulo minimizar seu papel e atribuir a quem ajudou todo o mérito do sucesso. Assombra, pelo quanto tem de jactância por parte de lula, e o quanto de sabujice e submissão por parte de Dilma, a cena que protagonizaram, trombeteando tão desprezível relação.

terça-feira, 27 de maio de 2014

MAL SEM CURA


O colunista Reinaldo Azevedo na questão dos crimes praticados pelos militares durante a ditadura, cuja hediondez realça com a precisão e brilho que o caracterizam, entende que os delitos estão cobertos pela lei de anistia. Não penso assim, como talvez o leitor também não pense, ou pense, eis que o pensar, entre nós, ainda é livre e diversificado.

Mal aflorou a opinião do jornalista, caíram-lhe de paus e pedras os rapazes afetados pelo vírus do marxismo modificado. É de doer, é de chorar. Passam-se os anos, o mundo muda, a leitura se amplia e a meninada da luta de classes a repetir jargões numa ladainha sem fim.

Neocon foi o doesto cretino que tentaram colar no lúcido jornalista. Neoconservador seria. Nisso são mestres. Mestres de sinistro ofício que já não tem mais razão de existir.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

PRIMITIVOS

Dificilmente se há de encontrar algo mais cínico do que identificar como primitivismo a hediondez de determinados delitos. Por certo que tão grosseira quão estúpida assertiva descansa sobre a infundada sensação de que o progresso científico, tecnológico, político, possa ter influído em nossa natureza. A todo o momento presenciamos em tempo real, nas coberturas televisivas, as mais horripilantes cenas de carnificina, sadismo, crueldade imotivada e insana.
Essa evidência não impede que olhemos nossos antepassados como mais propensos a cometer as vilanias que cometemos. Porque são toscos? Porque são carentes? Porque sujeitos a todos os perigos? Famintos e expostos às feras, pragas, doenças? No máximo poderiam ser tão cruéis como nós. Mais, por quê?

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O MURO


Existe, e quero crer que sempre tenha existido, um tipo de analista político que prima pela isenção com tanto zelo e cuidado que chega a expandir delicado odor a cinismo, a acomodação. Sempre alardeando um “a mim ninguém engana”, volta-se a estéril papel de clarividente, diria de farol.

São maus, são úteis? Antes de mais nada, diremos que exercem  direito inerente à democracia. Isto não impede que os vejamos como linha auxiliar, espécie de quinta coluna do lado pior. Explico: em política, nas democracias desde logo, haverá sempre um embate geralmente binário, entre algo que avança e algo que retrocede. Somos livres para aderir a qualquer desses lados. Claro está que essa adesão nãos nos impõe encobrir desvios de ética e de moral que partam de protagonistas políticos de nosso lado. Longe disso. Mas implica sim que pelo conjunto do que dizemos e fazemos, em maior ou menor grau, segundo nossa atuação, deixemos ver com razoável clareza qual lado escolhemos.

Já aqueles, os argutos, os que pairam acima das leituras gerais, conseguem caminhar sobre ovos. Sua marca é não ser. Não são de esquerda, nem de direita, tampouco do centro. Não concordam com o Estado enxuto, mas muito menos com o inchado, todavia não simpatizam com os que dizem que essa discussão é tola, porque o Estado deve ter o tamanho imposto pela eficiência. Adoram estigmatizar agentes vivos do processo político com ícones do passado. Lacerdinhas pra cá, lacerdinhas pra lá, sugerem assim uma filosofia fatalista, ou circular, em que tudo se repete, procurando ver na oposição ao mar de lama vigente uma ressureição da antiga UDN, e aí esbarram em grosseira ignorância sobre fatos e circunstâncias que os torna muitas vezes desrespeitosos. Quando chamam o grande senador paulista Aluísio Nunes de lacerdinha, desrespeitam tanto a Aluísio quanto a Carlos. Enfim, nossos luminares, em resumido resumo, se me permitem o pleonasmo, cumprem nítido papel desmobilizador, que, é óbvio, favorece amplamente o status quo.

domingo, 4 de maio de 2014

EMBUSTE


Tem se mostrado recorrente alegação dos governistas de que à oposição faltam propostas. Verdade? Será mesmo disto que se trata? Difícil entender que a um conjunto de forças políticas faleçam propostas, visto que estas, em grande profusão e perfeição crescente, podem ser obtidas a custos relativamente modestos mediante contratação de técnicos competentes. Serviriam, a nosso ver, se a ideia fosse travar batalha de projetos a se entrecruzarem nos céus da multimídia.
Não são propostas, primacialmente, que ganham adesão, são exemplos. É a conduta honrada e eficiente na gestão pública que credencia os dirigentes. Afora isto, o proselitismo soe ser obtido mediante distribuição irresponsável de bondades sem retorno, sem a fonte multiplicadora que as sustente, como o subsidio a tarifas, a distribuição de cargos inúteis, a abundância acintosa de mordomias, a facilitação dos delitos contra o erário. Guerra de propostas? Nada nos parece mais alienante.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

CAPITALISMO VERSUS NADA

Na idade média, no surto mercantilista, na descoberta da máquina a vapor, há quem o situe nas cavernas, o capitalismo tem se revelado a forma de produção mais afim com a natureza humana. Somos apegados a bens, ambiciosos, competitivos, inseguros e, não por outra razão, o capitalismo reflete todas estas misérias. Daí que ao longo da história, em compreensível escapismo a estes problemas inerentes ao convívio humano, surjam as utopias. Mas, desde logo, todas elas se revelaram ruinosas à humanidade.
As experiências que se lhe opuseram resultaram piores do que o capitalismo. Nenhuma, porém, até porque integralmente levada à prática, superou o socialismo em sofrimento e privações. A ideia de que é possível repartir o bolo que resulta do fazer humano em porções equânimes, faliu tragicamente, e há de falir sempre que intentada, porque despegada de todas as demais variáveis, objetivas e subjetivas, que incidem na produção de bens.
Fome, doença, criminalidade, poluição, problemas de mobilidade urbana são males que só têm encontrado minorantes em lugares onde se associam riqueza e gestão, sendo de notória inutilidade indagar a precedência entre uma e outra destas componentes. Dois enfoques, ambos sem nenhuma razão de ser no mundo desenvolvido, onde são encarados em âmbito meramente acadêmico, prosperam nas nações atrasadas, constituindo-se em mote de intermináveis e estéreis pugnas ideológicas: culto às leis de mercado, de um lado, e exacerbação do papel do Estado, de outro. Do primeiro, em nossas cercanias e em tempo recente, não há registro que mereça análise. O segundo, onde se instalaram governos de viés esquerdista, na verdade populistas, tem sido a causa de um rosário de males.
Se por um lado, um estado à mercê das “leis de mercado”, dando-se boca livre ao tubaronato para que pratique todos os delitos imagináveis, é arrematada tolice, de outro, o intervencionismo elementar, tipo preços subvencionados ou tabelados, multiplicação histérica de cargos, aparelhamento de estatais, corrupção à solta, é rota segura para o abismo.
Estes enunciados preliminares servem para que se precipite a conclusão inelutável: para os males do capitalismo um só remédio: democracia. O aprimoramento da máquina de Estado pela maior integração entre povo e seus representantes, nas formas secularmente estruturadas de representação é o que tem feito os prodigiosos avanços em países como Noruega, Finlândia, Nova Zelândia, Dinamarca, Coréia do sul, tantos outros a nos encher de inveja.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O GOLPE DE ABRIL

Muito mais do que ater-se ao “perigo comunista”, pinçado da retórica infantil do populismo jango-brizolista, parece-me importante considerar os malefícios da ditadura, cujas sequelas aí estão, passados cinquenta anos. Aliás, o alegado radicalismo de Brizola empalidece frente ao programa que se propunha o PT, já em plena democracia, antes de ser governo.
Não nos venham de borzeguins ao leito. O que houve em 64 foi um Golpe de Estado, urdido e em grande parte financiado pelo Departamento de Estado e pelo Pentágono dos Estados Unidos, com apoio na carcomida oligarquia dos grotões que o PT caridosamente rebatizou de elite e com a qual se casou, para instalar esse governo de fisiologismo e corrupção.
O resultado das ditaduras que a guerra fria espalhou pelo mundo vê-se na matéria diária da imprensa. Mas enquanto boa parte dos países que passaram pela repressão avança para padrões abertos, a ensejar desenvolvimento e democracia, neste sombrio cone sul do continente os estragos permanecem. Entre os males que o arbítrio deixou, avulta o aniquilamento, para não dizer destruição, da atividade política por longos vinte anos. Toda uma geração foi privada da escolha de presidente da república, governadores e prefeitos de inúmeras cidades. No caos que se seguiu à abertura proliferaram dezenas de partidos, siglas de aluguel, que hoje servem de instrumento da política aliancista. O processo eleitoral, contaminado pela visão discricionária, gerou um cipoal de regras que nada permitem. O choque de correntes, inerente e vital ao jogo democrático, foi sufocado. No lugar do comício, do rádio, da televisão, das praças, erigiu-se o espaço obrigatório como único altar. Em torno dele e por ele, celebram-se os mais sórdidos conchavos.
Falar dos males econômicos deixados pela ditadura demandaria um livro. Nesta descolorida nota fique o registro da supressão total da liberdade e dos abomináveis crimes de homicídio e tortura que só encontram maldade maior na intenção de ocultá-los.